domingo, 3 de fevereiro de 2013

Sofrimento, a inexplicável realidade e o que há de mais caro no Mundo I

Defender que o ser humano só evolui através do sofrimento, ou que este é pelo menos uma parcela fundamental para o seu progresso, é o mesmo que dizer que uma criança só aprende por meio de açoites. Contrariamente aos que defendem tal aberração, as novas correntes pedagógicas já perceberam que a educação é, principalmente, a arte de bem dialogar, donde promovê-la significa acreditar que a palavra é o maior dos bens do Homem.

Daí ser contraproducente e mesmo anti-natura apoiar o progresso humano no sofrimento. Por outras palavras, nem o progresso vem por esses meios, nem se verifica que os mesmos culminem em progresso. Em termos de fé, uma coisa é acreditar em Deus segundo um espírito livre e feliz, vendo Nele o Ser do sumo Bem, outra bem diferente é fazer de Deus uma terapia psicológica para os males que acontecem. Nem Deus é um comprimido, nem um sádico que traça caminhos dolorosos para chegar até Ele.

Por outro lado, fazer do sofrimento a alavanca para desenvolver a fé é demasiado perigoso, pois a História prova até onde nos tem conduzido tal postura. Chegando ao ponto de não querer ser feliz, sob pena de ir parar ao Inferno, muitos houve que procuraram o caminho da dor, associada ao sofrimento, para antecipar a sua entrada no mundo das bem-aventuranças. Ora, nem a dor física é sofrimento, nem o sofrimento é dor física. É muito fácil flagelar o corpo, é bem mais difícil fazer a alma retroceder nos seus vícios, defende o Espiritismo.

Assim, se quisermos definir sofrimento debatemo-nos com a fagilidade da linguagem. Podemos dizer que é um estado d´alma, uma vez que pessoas em situações idênticas têm reacções opostas. E ainda que tracemos excepções, nomeadamente no que diz respeito à dor universal de perder um filho, o sofrimento é sempre mediatizado pelo factor cultural.

O Espiritismo propõe que é preferível perder um filho a vê-lo nos caminhos do ilícito, o que vem contrariar a máxima de que “enquanto há vida, há esperança.” A Doutrina espírita defende a morte como um bem, isto é, o desencarne, porque, se a vida continua além do corpo, em outra dimensão, então é preferível abandoná-lo a fazer mau uso da vida e do próprio corpo.

Todavia, o assunto não é pacífico, levanta uma infinidade de questões. Vejamos: Não será preferível uma vida difícil a vida nenhuma? Ainda que todos acreditem numa vida além da morte, não é preferível apostar mais nesta, que sabemos como é, a uma outra de que não temos informação, ou pelo menos não a temos de forma precisa? Defender a vida não é um valor prioritário? Desejar a morte, ou preferí-la à vida, não é pecado? Querer a morte por ser dfícil a vida não é uma fuga, um mecanismo de fraqueza? Quem deseja a morte a um filho com base na fé de que no além terá uma vida melhor? Semelhante postura não terá como pressuposto a velha máxima de que, ao morrer, entramos directamente no mundo da luz? Não estará, por ventura, tal desejo, se assim lhe podemos chamar, oposto ao que o próprio Espiritismo defende, a saber, que não entramos num mundo melhor a partir do momento em que neste trilhámos a senda dos vícios?

O que desejamos e o que devemos desejar são por vezes incompatíveis, no sentido de desconformes com os nossos interesses. Vivemos mediatizados por uma infinidade de situações que não construímos, nomeadamente a cultura, além de relações laborais, modelos de consumo normativos que não são nossos. Como contextualizar o sofrimento num mundo que, erroneamente, se tornou global, e no qual cada vez mais se faz o que não se quer nem como quer? Mais, como explicar e justificar a função espiritual do sofrimento quando ele se tornou um artifício manuseado segundo os interesses de quem governa?

Há que perceber que criar sofrimento tornou-se no ganha-pão de uns quantos. Reduzir os salários, a segurança no trabalho, na escola, a criação de ghetos, a identificação dos indivíduos segundo as marcas dos produtos que consomem, a redução do ser ao ter, a produção de novos ignorantes ou analfabetos nas escolas, mercê de métodos e técnicas pedagógicos elaborados em gabinetes e não a partir da experiência da realidade da sala de aula, a falta de perspectivas e de saídas profissionais para os jovens e a violência crescente entre os mesmos, tudo isto se tornou na alavanca dos pulsos de ferro do século XXI. (Continua)

Margarida Azevedo

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