(Continuação)
Ora, é certo e sabido que em situações adversas a fé
entra em acção. Ela transforma-se, não em acto livre de crer, mas em
mecanismo reactivo, uma resposta contra a prisão “perpétua” em que
encerraram toda agente. A fé deixa de ser um meio de o indivíduo lutar
pelo bem e elevar-se, para ser a crença de que, no para lá, seja lá onde
for, a felicidade espera-o. E é este o pensamento que interessa aos que
governam, que dessa forma têm o caminho aberto e livre para criar mais
sofrimento. Dito de outro modo, se parte significativa do que comemos já
não vem directamente da Natureza, o sofrimento está a ser igualmente
criado em estufa.
Estamos a viver num aviário gigantesco, carne
para consumo de processus de aculturação que nos impelem a apresentações
de sofrimento que se sobrepõem às nossas. Exemplo: uma coisa é um
indivíduo querer publicar uma obra literária, mas, mercê das suas
ocupações com um familiar doente, não ter a disponibilidade necessária
para o fazer; bem diferente é querer publicar o dito trabalho mas não o
fazer porque, à sua frente, estão as obras fúteis de todos os que
pertencem às amizades do editor.
Estávamos habituados a que o
sofrimento fosse o meu sofrimento, não o de outro, a minha relação com o
meu estado d´alma; uma relação de posse, de intransmissibilidade e
intransitividade, e nisto consistia a sua universalidade: ser tanto mais
geral quanto mais se particulariza em cada indivíduo. Hoje, continua a
haver universalidade, já não como o conjunto dos indivíduos mas como
massa anónima de gente que se pretende à deriva, perdida e confusa, e à
qual se dá todo o tipo de possibilidades para pensar a sua fé
inconsequente, verdadeiras aberrações que em nada contribuem para o
progresso da Humanidade. Todos se tornaram expectantes de uma vida
melhor no para lá, ou de um castigo mágico para os maus ainda cá deste
lado.
Associar o sofrimento à evolução pode ter as suas
vantagens, se com isso querermos dizer que o progresso tem os seus
escolhos. Porém, eles não podem ser tidos como elementos do sofrimento.
Pelo contrário, são móbeis fundamentais ao processo de investigação. As
evidências são por demais perigosas e os escolhos despertam a
inteligência para o mais recôndito.
A nossa evolução é, por isso,
antes de tudo, uma acção da vontade livre à qual está subjacente uma
pré-disposição. Nascemos portadores de mecanismos que nos direccionam
para áreas de interesses. Ora, o sofrimento surge quando, exteriores a
nós, ou mesmo por nosso intermédio, em resultado da nossa ignorância,
outros factores se sobrepõem impeditivos de conscretizar o que
naturalmente nos está traçado. Porém, não se confunda tais factores com a
noção psicológica de frustração. Esta não se resume apenas à figura
paterna ou materna castradora que impede o filho de realizar um desejo;
ela consiste igualmente numa barreira do próprio indivíduo impedindo-o
de concretizar tarefas, o que, uma vez tratado, remete-o para a
efectivação dos seus objectivos. Pelo contrário, os factores externos
impeditivos são um conjunto de múltiplas acções, que mercê do seu poder
incomensurável, condicionam o indivíduo de forma definitiva, levando-o a
agir contra si mesmo e que o impedem de realizar aquilo para que estava
vocacionado.
Há que compreender que evoluir é uma decisão que se
toma e que fica para sempre. Ninguém decide que vai evoluir durante um
mês ou um ano. Trata-se de um querer desmesurado, sem limite, sem ponto
de chegada pois está em permanente acontecer e onde é sempre possível
acrescentar mais um.
Por consequência, crescer significa
aumentar responsabilidades, desenvolver aptidões, partilhar com maior
equidade, contribuir conscientemente para o progresso da sociedade. Como
fazê-lo numa cama de hospital, que projectos num país onde, pela fome, a
esperança média de vida vai apenas até aos 40 anos de idade? Como
pensar a longo prazo? Como idealizar uma vida melhor para os filhos? Que
educação lhes facultar? Que fé, que oração, que forma de crença, que
disponibilidade para as actividades espirituais na miséria, na falta do
mais elementar, do mais básico?
A religião, a ética, a política e
tudo o mais com que nos ocupamos quotidianamente é assunto de gente de
barriga cheia. Quando cheio de fome, tudo se resume a colmatá-la.
Condenar um ladrão que assaltou um banco é uma coisa, condenar alguém
que furta um pão para comer é outra bem diferente. Víctor Hugo, esse
espírita convicto, percebeu-o com singular lucidez: a universalidade da
Lei tem que ser justamente aplicável à singularidade do indivíduo. Os
Miseráveis mostram-nos até onde pode ir um homem, quando injustamente
acusado de ter cometido um acto perigoso, movido apenas pela fome.
Em
suma, bem mais que a indústria farmacêutica e o negócio das armas, para
além do tráfico de droga e todo o tipo de produtos comercializados no
mercado negro, o sofrimento supera, e muito, todo esse mundo do ilícito.
Primeiro
porque é um negócio legal, ainda que tudo o que lhe seja paralelo possa
não o ser; segundo porque não escolhe ninguém. Toda a gente tem o seu
sofrimento, em todas as idades, em todas as classes sociais, em todos os
sectores da vida. É uma espécie de praga sem antídoto que atravessa
continentes, estruturas sociais e políticas. Não conhece raças, etnias,
vai para além do factor religioso, da fé. Não tem que ver com a conduta
da vida. Gente boa e má sofre de forma idêntica: assassinos, ladrões e
gente honrada. Ética, moral, educação, arte, ciência, cultura são-lhe
indiferentes. Todos, absolutamente todos estão no mesmo barco. Porquê?
Como explicar este mistério?
Se tomarmos em consideração que o
mundo cresce para um contencioso com quem trabalha, que a mão-de-obra
está cada vez mais dispensável e barata, que se abafa todos os dias a
força de quem tem nas mãos a riqueza e o garante de sobrevivência de um
país, que são criados todos os meios para desenvolver a insegurança e
com ela a crescente fragilização do ser humano em todos os parâmetros e
em todas as estruturas básicas, então temos que concluir que estão
criadas as condições para manter e aumentar o sofrimento dos povos.
Condenando-os ao silêncio, mas criando a ilusão de que são livres de
pensar e opinar, a autodeterminação nunca foi tão posta em causa, pois
que a interferência nas políticas internas tornou-se o prato do dia.
E
como há compradores para tudo, ou consumidores de todos os gostos,
também há quem goste de consumir sofrimento. É muito fácil. A imagem de
Jesus crucificado deve ser das figuras mais vendidas do mundo. Um
instrumento de tortura, Jesus no clímax do sofrimento, a cabeça
pendente, a sangrar e com o olhar vítrico tornou-se no grande embaixador
da salvação. Trazê-la pendurada ao pescoço, ou fazer dela instrumento
de adorno em casa, ou trazê-la como amuleto no automóvel, a cruz, com ou
sem Jesus, é dos maiores instrumentos do medo, do sofrimento, bem como
de antagonismo à livre expansão do pensamento do crente.
Cada vez
mais procurado, o sofrimento é matéria fácil de políticos sem
escrúpulos, dos líderes religiosos fanáticos, da publicidade enganosa,
de organizações fantasma tais como agências matrimoniais, centros de
convívio para conhecer pessoas sob o pretexto de cultivar e desenvolver
padrões de socialização e quebrar o isolamento. E estes são os aspectos
mais soft. Aumentar o fosso entre ricos e pobres, ver gente a enriquecer
à custa do ilícito, criar, por meio de mecanismos psicológicos
manipuladores, o aliciamento e a consequente angústia por não poder
comprar algum conforto a que, legitimamente, todo o ser humano tem
direito é tornar a vida em tortura e cujo objectivo, dos fracos, é viver
uma vida sofrível e descurar, por consequência lógica, o seu importante
papel de ser mensageiro de uma pequena luz ao fundo do túnel.
No
conjunto, é um punhado de gente das trevas a viver à custa de quem
precisa de uma resposta para os seus problemas, uma mão amiga, uma ajuda
eficaz, mas também de quem quer mostrar o seu valor e fazer alguma
coisa pelo outro. É certo que não há uma resposta definitiva, como nada
de definitivo existe neste mundo, mas é a resposta possível, a mais
viável para um determinado momento; é aquilo que se precisa de ouvir ou
fazer naquela hora.
É facto que o Homem é um ser de problema, mas
é simultaneamente um ser de resoluções. Num mundo onde os animais são
tão mal tratados e ainda trabalham, não conhecemos que os mesmos se
tenham organizado em associações contra os maus tratos dos humanos.
Assim, se estes não aprenderem a utilizar a inteligência em seu favor,
se não a aplicarem no alívio do sofrimento, cada um de per si e em prol
de todos, então em nada serão superiores aos animais.
Margarida Azevedo
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