Luis Orlei Garcia
Cz 5790
Era um projeto antigo, ao completarmos nosso vigésimo quinto aniversário de casamento, fazer uma viagem à Europa, onde a visita a lugares sagrados estivesse no roteiro. Nosso propósito era que, além do lazer, pudéssemos manifestar nossa gratidão ao Criador, pelas inúmeras bênçãos recebidas, indo orar naqueles locais onde emissários do Pai, denominados santos pela Igreja Católica, deram o seu testemunho de fé e amor.
O projeto foi se consolidando e a idéia de conhecer a região onde Maurício fora martirizado incorporou-se ao nosso plano. Sabíamos que ele e seus legionários haviam sido sacrificados na Suiça, mas em que região? Iniciamos nossa pesquisa, um guia de viagens sobre a Suiça nos deu a resposta. Lá estava; "Explorando Valais: O Vale do Rhône (Ródano), em Villeneuve, é amplo e aluvial, mas dirigindo-se ao sul, subindo o vale, as montanhas já começam a lotar de turistas de ambos os lados. Em Saint Maurice você cruza o Rhône e entra oficialmente no Cantão do Valais, deixando para trás o Vaud. Aqui o vale e o rio começam a mudar de características. As montanhas estão mais próximas, o Rhône não mais corre placidamente, mas dá uma idéia da torrente de montanha em que se transformará. Aqui, no final do século III, um líder tebano chamado Maurício foi massacrado com a maioria dos seus homens, por recusar-se a adorar os deuses de Roma." Não tínhamos mais dúvidas, nosso destino era Saint-Maurice. Onde ficar? Lausanne, às margens do lago Léman, apresentou-se como a solução natural. A Suiça é muito bem servida de trens e Saint-Maurice fica cerca de uma hora de trem de Lausanne.
Domingo, 20 de Janeiro de 2002, o sol ainda não aparecera e deixávamos o hotel em busca da estação de trem. Atipicamente o inverno europeu apresentava temperaturas amenas. Nossos corações pulsavam de alegria. Saint-Maurice é uma pequena cidade, pensávamos, não há muito para ver, até ao meio-dia teremos conhecido os pontos mais interessantes e poderemos seguir para alguma outra localidade, imaginávamos. Entretanto o planejamento superior era outro. Emoções indescritíveis, que apenas a linguagem do coração pode expressar, nos aguardavam naquele vale emoldurado pelos Alpes.
Com as primeiras luzes da manhã deixávamos Lausanne para trás. O trem para Sion marchava às margens do Léman, suas águas cristalinas refletiam os primeiros raios solares. Vevey, Montreux, cidades e estações iam passando, por fim Saint Maurice. A pacata cidade, às margens do Rhône, denominada Agaunum pelos romanos, onde Maurício, seus capitães Exuperius e Cândido, e sua Coorte testemunharam, perante a autoridade suprema de Roma, o seu amor ao Cristo, deixando-se imolar como cordeiros em prol do exemplo da fé que legaram à posteridade.
Desembarcamos, poucos passageiros desceram, rapidamente a estação ficou vazia. Fazia muito frio, apesar do sol e do lindo céu de intenso azul, contrastando com o branco véu de neve que cobria as montanhas. Nosso destino era a Basílica de São Maurício. Procuramos alguém para tomar as primeiras informações. Estação e ruas vazias, ninguém que nos pudesse auxilar, era cedo, domingo. Um mapa na estação indicava o escritório de turismo, que também estava fechado. O que fazer, para onde ir, embora pequena, não tínhamos a menor idéia onde ficava a Basílica. Mas conforme nos ensinam os Espíritos na questão 459 do Livro dos Espíritos: "Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos? Muito mais do que i-maginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem." Pudemos confirmar esta assertiva, tais as "coincidências" que guiaram nossa visita.
Impelidos pelo frio e pela necessidade de informações, caminhamos na direção do que julgávamos ser o centro da cidade. Numa rua estreita, antiga, encontramos um misto de padaria e lanchonete, talvez o único estabelecimento comercial aberto àquela hora da manhã. Entramos para nos aquecer e obter as informações que necessitávamos. Aquecidos e conhecendo o rumo a tomar, seguimos finalmente em direção à Basílica. Em lá chegando, nova dúvida, por onde entrar, experimentamos a primeira porta que encontramos, abriu, ninguém para nos receber. Entramos assim mesmo, um salão amplo, com peças romanas expostas, marcos das antigas vias, fragmentos de altares pagãos dedicados aos deuses romanos, entre outras. A um lado, uma escada em pedra conduzia para um andar superior, ao final do primeiro lance, na parede, ao alto, um belíssimo quadro, grande, retratava um legionário, com o coração trespassado por uma espada, identificamos Maurício. Subimos, outra porta, entramos, uma capela nos convidava à prece. Entregamo-nos à emoção e naquele silêncio, oramos fervorosamente, sentindo a presença de nobres Espíritos. Não sei quanto tempo nos mantivemos em prece.
Retornando para o salão da entrada nos detivemos a analisar um quadro com avisos, foi quando nos demos conta que havia uma pequena campainha, acionamo-la, a porta que ficava ao lado abriu-se, entramos, era uma espécie de recepção, com relíquias religiosas para venda. Tentamos dialogar com a senhora que ali se encontrava. Ela, porém, não falava inglês, apelamos para o nosso francês ginasial, estávamos ansiosos, finalmente encontráramos alguém que poderia nos fornecer alguma informação acerca de Maurício. Indagando-lhe sobre os fatos históricos, ela nos apresentou alguns livros, mas enquanto conversávamos e esforçávamos por nos entender a Providência Divina operava. Duas irmãs chegaram, uma delas da Congregação de São Maurício, que havia vindo para a missa na Basílica e retornava para a casa sede da Congregação, onde estava hospedada. Como havíamos indagado sobre o local exato do martírio, ela ofereceu-se para nos guiar, pois era para lá que ia. Rejubilamo-nos.
Acompanhando a freira, uma dessas almas generosas que dedicam sua vida a serviço do Cristo, marchávamos rápidos, para afugentar o frio. Embora ela também não falasse inglês, conseguimos nos entender em francês. Ficamos sabendo que a Congregação das Irmãs de São Maurício, além da Suiça, desenvolve um trabalho em Madagascar, onde essa irmã trabalha. Estava na Suiça de férias, revendo familiares. Há dezenove anos vive naquele longinquo país africano, cuidando dos filhos das detentas de um presídio feminino. O calor da conversa e o carinho fraternal e espontâneo aqueciam-nos. Enquanto caminhávamos, um fato nos chamou a atenção, recordando-nos hábito antigo das nossas cidades do interior, um jovem que conosco cruzou, cumprimentou-nos, sorridente, mais adiante um senhor repete o mesmo gesto e mais adiante uma outra pessoa que cruza conosco, também nos cumprimenta. Indagamos se aquelas pessoas haviam nos cumprimentado porque a conheciam ou era um hábito local, quando moradores cruzavam-se em via pública. Respondeu-nos que era um costume local.
Alcançamos os arredores da cidade, depois de termos nos encantado com as casas, na sua maioria, emolduradas com jardins, aguardando a primavera para cobrir-se de flores. Os campos brancos abriram-se numa planície estreita, refletindo os raios do astro rei. Caminhávamos rumo ao sul, à esquerda o Rhône, corria rente a um conjunto de montanhas. À direita outras montanhas enfileiravam-se. Tínhamos nos afastado cerca de dois quilômetros do centro da cidade, uma pequena capela assinalava o local do martírio. Vérolliez é o nome desse local. Próxima à capela, a casa sede da Congregação de São Maurício, destino final da freira que nos servira de guia. Sem a providencial ajuda dela dificilmente teríamos chegado até aquele local.
A gentil freira deixou-nos à vontade para visitar a capela. Antes, porém, de se recolher, convidou-nos para que, após nossa visita, fôssemos saborear com ela um café com biscoitos suiços. Explicou-nos que a casa sede da Congregação é aberta às famílias para encontros e retiros. Entramos na capela, muito singela, novamente o silêncio e a solitude nos convocam à oração sentida que faz nossas almas transbordarem de emoção, alegria e gratidão pela graça recebida. No altar um belo quadro a óleo representando o martírio de Maurício e seus companheiros. À frente do altar um trecho de uma frase atribuída a Maurício, para o Imperador Maximiano, quando se recusa pela segunda vez a abdicar da sua fé cristã, para sacrificar aos deuses pagãos e ao imperador: "Nós somos teus soldados, Oh imperador, mas acima de tudo servidores de Deus. Nós te devemos obediência militar, mas a Ele devemos nossa inocência. Nós preferimos morrer inocentes que viver culpados".*
Ao lado da entrada, duas colunas romanas sustentam uma grade sobre a qual repousa a pedra do martírio. Encerrada a visita, buscamos a casa sede, onde a querida freira nos aguardava para mais uma conversa agradável, acompanhada por saborosos biscoitos e chocolates suiços.
Com nossos corações plenos de alegria despedimo-nos e tomamos o caminho de volta para a cidade, cumprimentando, naturalmente, as poucas pessoas que encontramos, havíamos aprendido. A manhã já se passara e fôramos informados pela gentil freira que às três horas da tarde, na Basílica, o "Trésor de Saint-Maurice" abria para a visitação pública. Demandamos a um restaurante para almoçar e aguardar a abertura do Tesouro de São Maurício. Novas emoções nos aguardavam.
Após termos almoçado e aproveitado para observar as pessoas e costumes locais, que nos encantaram, marchamos, agora conhecendo o caminho, novamente para a Basílica. Desta vez buscamos o interior da Abadia. A porta principal já impressiona pela sua majestade, em bronze, tem esculpido em alto relevo, no topo, a imagem de Jesus tendo sob seus pés uma faixa sustentada por dois anjos, que o contemplam. Abaixo, também em alto relevo, legionários contemplam o Cristo.
A história da Basílica começa em 420, quando é construída a primeira igreja, junto às rochas, no local onde havia uma necrópole romana e um templo dedicado às Ninfas. Nessa necrópole Maurício e seus companheiros haviam sido enterrados. Em 380, São Teódulo, primeiro Cardeal conhecido de Valais, descobriu esse cemitério e mandou construir um mausoléu com os ossos de Maurício e seus legionários. Em 480 é construída uma segunda igreja, depois uma terceira e assim sucessivamente até a atual que é a oitava. As construções aconteceram principalmente visando ampliações. Entretanto em 1614, quando iniciou-se a construção da sétima igreja, que terminou em 1624, outra foi a motivação. As anteriores eram muito próximas da rocha, tendo havido muitas avalanches de pedras que as danificaram. Assim, decidiram os abades afastá-la das rochas. A atual mantém a planta dessa igreja, que passou por uma recuperação entre 1946 e 1950, pois em 1942, durante uma missa, uma enorme pedra atingiu a torre, que ruiu parcialmente sobre o órgão e a parte posterior da Basílica.
Enquanto aguardávamos, com os nossos corações suspensos por um misto de júbilo e prece, admirávamos os vitrais coloridos relatando a história de Maurício e sua Legião, os mosaicos retratando santos, o grande quadro de Mauríco no altar e as colunas solenes sustentando os arcos da nave principal.
Às três horas um padre aparentemente octogenário vem abrir a Capela das Relíquias dos Mártires. Lá dentro peças religiosas valiosas de diferentes períodos históricos, das épocas romana, merovíngia, carolíngia, gótica, barroca e moderna. As caixas mortuárias que abrigaram, após a descoberta, os ossos de Maurício e de Cândido, um de seus capitães. Vasos e jarros incrustados de pedras preciosas, entre eles um que pertenceu a Carlos Magno. Inúmeras peças utilizadas na liturgia completam o acervo. Encerrada a visita, informados que fôramos pela piedosa freira sobre as catacumbas, indagamos ao padre se poderíamos visitá-las, ao que ele respondeu afirmativa-mente.
Guiados pelo religioso adentramos o mosteiro. O claustro interno, restaurado, conserva os traços dos primeiros tempos, paredes largas em pedra, sustentadas por colunas romanas, guardam um pequeno jardim. Subindo pequena escada alcançamos as catacumbas, onde enfileiradas restam as marcas de túmulos da necrópole romana, onde foram encontrados os ossos de Maurício e seus companheiros. Subindo mais um pouco, saímos num espaço amplo, ao pé da montanha que se alça íngreme em direção ao alto. É um interessante sítio arqueológico, com as ruínas do antigo templo romano dedicado às Ninfas, as ruínas das seis primeiras igrejas e, mais importante, a tumba mandada construir em 380 por São Teódulo, em torno da qual foi erigido o mausoléu para onde foram transferidos os ossos de Maurício. Demoramo-nos contemplando aquele quadro, procurando sentir a história ali presente. Encerrada a visita, despedimo-nos do padre e retornamos à igreja, para um último olhar ao quadro de Maurício, agradecendo-lhe a experiência feliz, enquanto procurávamos fixar na retina da memória todas aquelas imagens.
Enquanto o trem confortável nos conduzia de regresso para Lausanne, refletíamos sobre a bondade e o carinho dos Espíritos amigos. Aquele que pensávamos seria um rápido passeio, a uma pequenina localidade suiça, sobre a qual pouco sabíamos, tornou-se uma experiência marcante e inesquecível para nossos corações. Pois tínhamos a certeza que contáramos com os melhores guias turísticos, esses generosos Guias Espirituais que conduziram nossos passos, tal a perfeição com que os fatos foram se desenrolando, embora nada tivéssemos planejado. Orando silenciosamente, agradecíamos a Jesus e a Maurício a imensa felicidade que inundava nossas almas. O Sol se pondo por trás dos Alpes Suiços ia dando lugar às primeiras sombras do anoitecer, vestindo de dourado o horizonte e o céu que se refletiam sobre as águas cristalinas do Léman.
Ave Cristo!
O autor é Ten Cel R/1 Engenheiro Militar, e membro do Conselho Superior da CME.
Nota da Redação: O Capitão Maurício (São Maurício da Igreja Católica) é o Patrono Espíritual da CME. Ele e seus comandados, a Coorte Auxiliar Tebana, recusaram-se a render culto aos deuses romanos, conforme ordem do Imperador Maximiniano. Em decorrência disso, toda a tropa foi decapitada. Conforme a tradição, este exemplo de fidelidade aos ideais cristãos e de disciplina militar ocorreu a 22 de setembro de 286, nos campos de Agauno (hoje Saint-Maurice, Suíça).
Agradecido!
ResponderExcluirGrato!
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