Primeiro eles vieram com a
exaltação à “santidade” e à “pureza”, ou “perfeição” do Homem de
Nazaré. Deturparam textos de Kardec, com traduções bizarras. E você se
calou! Depois, resolveram editar “Os quatro evangelhos” e,
massificadamente, utilizaram o expediente da publicidade em sua revista
oficial, a da Reforma – não por acaso – divulgando a obra com o seu
epíteto “a revelação da revelação”, porque “precisavam” de “novidades”. E
você, novamente, se calou!
Então, foram introduzindo, um a um,
livros ditos psicografados ou escritos por literatos espíritas,
editando-os, em sequência, apresentando um Jesus “fluídico” (sem
sofrimentos físicos) e a virgindade de Maria, sua mãe, para celebrar os
“mistérios”. E você, também, se calou!
Elegeram um “anjo” –
materialização da fábula católica – como “guia espiritual” do planeta, e
você achou sublime, porque a ideia da angelitude é uma metáfora em
relação ao ápice do percurso espiritual. Você se deixou convencer e...
se calou! Adiante, aproveitando-se de uma prodigiosa (mas, também,
ingênua) mediunidade, que produzia muito, deram-lhe o caráter de
“continuador” doutrinário, sem examinar e criticar os textos que
provinham de um velho sacerdote católico, impregnado de suas crendices e
visões igrejistas. E você, mais uma vez, se calou!
Dizem,
alguns, que os originais destas obras foram destruídos. Porque não havia
necessidade alguma de mantê-los, pois já tínhamos, editados, os livros
físicos. E o silêncio foi a sua resposta!
Foram, um a um, muitos,
desistindo da filosofia e da ciência, entendendo que o edifício estava
pronto e que as manifestações de “espíritos eleitos” e “médiuns
escolhidos”, do ontem e do hoje, eram todas “autorizadas” pela
“Espiritualidade”, e você silenciou, novamente! Capciosamente, tocaram o
teu coração com a simbologia da mensagem sublime, sobre amor e
caridade, sobre perdão e não-discórdia, para tê-lo como cordeiro diante
do Pastor, e você não esboçou qualquer reação!
Resgataram velhos e
ultrapassados conceitos de temor e culpa, tão comuns entre as Igrejas,
desde Constantino, instituindo “prêmios” para bons comportamentos,
bonificadores, definindo lugares imaginários para o regalo das almas
submissas à meia-verdade, com departamentos e ocupações similares às da
Terra, e você deixou “barato”, porque desejava uma esperança de que, na
outra vida, as coisas se parecessem com a “atmosfera” da vida física. E
você se aquietou!
Agora, resgatam textos evangélicos diferentes
dos escolhidos como relevantes por Kardec e pela Verdade, publicando
oficialmente “O Novo Testamento” e projetando, ainda, uma “nova versão”
da Bíblia (Antigo Testamento), porque, afinal, um é a consequência do
outro e que voltar aos textos antigos é buscar a “sinergia” entre as
mensagens. E você até está pensando, silente, em comprar as obras!
Disseram-te,
também, que o tal controle das mensagens espirituais só era necessário
na época de Kardec, porque a doutrina estava iniciando e era necessário
filtrar as muitas comunicações, evitando a desfiguração da “árvore
cristã”. E você até aplaudiu, inconscientemente, entendendo que a
diretriz vinha, mesmo, do “Alto” e calar-se, para aprender, seria a
única alternativa!
E os pastores, então, prosseguem, tangendo as
almas pacatas, desfigurando a mensagem e aproximando-a das vaidades e
das honrarias do mundo. Todos se maravilham, assim, ante os “dotes”
artísticos, literários e de oratória de um ou outro “virtuose”, enquanto
os grupos de aprofundamento espírita, de discussão e de promoção de
saudáveis debates em busca dos conhecimentos progressivos mingua e se
esvai, no tempo, contando com a tua aquiescência e timidez, silenciosas!
Dizes
(ou dizemos), por vezes, que não tens (temos) tempo, nem energia, para
gastar com contendas, que precisas (precisamos) cuidar de coisas mais
importantes e os que estão no “movimento” não devem “procurar confusão”,
e os dias vão passando... E a você só resta o silêncio de sua
intimidade, a conversa com seus botões, e aquela indignação quase morta,
que não ultrapassa os limites de sua boca, de sua letra, ou de sua
própria casa... Porque você, eu, todos nós... Nos calamos!
Marcelo Henrique
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