Um piloto de um caça sobrevoa uma zona de conflito, ele olha para baixo e
vê que seu alvo é uma escola, a escola está cheia de crianças em
horário de aula, ele então segue com o plano, mira e dispara míssil que
mata imediatamente 25 pessoas, sendo 15 delas crianças. Um dos poucos
repórteres que ainda se arriscavam a permanecer na região filma o
resgate das vítimas, a notícia e as imagens correm o mundo e muitos se
perguntam: O que leva uma pessoa a cometer uma atrocidade destas?
Imaginemos
por exemplo que este mesmo piloto um dia com 8 anos de idade e
estudando em uma escola similar resolvesse acender o pavio de uma bomba
para, de forma planejada e consciente, matar igualmente cerca de 25
pessoas. Seria imediatamente considerado um doente, um psicopata e logo
seria levado para uma instituição para tratamento de doentes mentais
perigosos. Mas não é o caso deste piloto de avião, ele foi uma criança
normal, se comportava normalmente, tinha amigos e era considerado um
ótimo filho pela sua mãe (claro que todas mães sempre acham seus filhos
ótimos), ele chegou à idade adulta e resolveu seguir a carreia militar, o
que encheu sua família de orgulho.
Quando criança ele assistiu
ao filme Top Gun – Ases Indomáveis e como todo menino daquela época ele
também sonhou em ser um piloto de caça. E após anos de treinamento
chegou o dia em que todo homem das armas espera a oportunidade de ser
útil, de mostrar sua coragem e lealdade, de fazer valer seus anos de
treinamento e dedicação, de provar para todos o seu valor justificando o
seu alto status dentro da carreira das forças armadas que sempre lhe
renderam um bom salário e uma boa condição social para sua família.
Iniciada uma guerra ele primeiro faz missões de reconhecimento com
moderno equipamento fotográfico, enfrenta a artilharia anti-aérea, vê
companheiros seus serem abatidos e morrerem nas mãos do inimigo. Ele
despeja bombas sobre as linhas inimigas no meio do deserto e vai se
acostumando com o caos e a morte.
Este piloto começa então a
imaginar que civis podem estar entre as vítimas de seus ataques no
chamados “danos colaterais”, mas sua vontade de cumprir o dever para com
seus superiores e para com a nação fala mais alto. Como todo piloto
neste tipo de missão ele é cobrado a acertar os alvos designados sem
nunca questionar, ele não pode nunca falhar em uma missão, não pode
errar o ponto exato designado, não pode nunca abortar e simplesmente
voltar para casa. Nestas missões ele arrisca sua vida guiando uma
aeronave de muitas dezenas de milhões de dólares, ele gasta tempo e
combustível voando durante horas até a região dos alvos, enquanto seus
companheiros de luta no solo morrem esperando pelo apoio aéreo.
Lá
de cima ele enxerga o alvo e percebe que o que foi designado como um
possível esconderijo de “terroristas” se trata de uma escola em uma área
residencial, pelo dia e horário pode-se imaginar que estejam havendo
aulas, vê minúsculos pontos que parecem ser pessoas e pode muito bem
imaginar que sejam crianças. Mas ele segue com sua missão, dispara o
míssil e comete esta atrocidade que só poderia ser obra de um psicopata
muito doente, ele matou 25 pessoas sendo 15 crianças e não existe
justificativa que se possa dar para se cometer tal crime.
Esta
história é muito parecida com muitas outras que acontecem todos os dias
nas guerras pelo mundo afora, mas também podemos fazer uma analogia com
milhares de outras situações do dia a dia em todos os lugares e
contextos, onde um indivíduo racional, inteligente, razoavelmente
honesto, sóbrio e cumpridor de seus deveres vai aos poucos sendo levado
pelas conveniências e pressões sociais a cometer os atos mais absurdos.
Seja o policial que mata a sangue frio o bandido desarmado, o político
que faz acordos sujos que tiram da saúde milhões que poderiam salvar
muitos mais do que 25 pessoas. O juiz ou promotor que condenam sem
piedade o homem humilde que poderiam muito bem terem percebido ser
inocente. O servidor que trata o público com desleixo e insensibilidade,
causando pequenos prejuízos a milhares de pessoas.
Os indivíduos
que cometem estes atos, dos mais graves aos mais comuns, não passam a
agir com este desrespeito pelo próximo de uma hora para a outra, estas
são situações que são construídas ao longo de muitos anos, são atos
conscientes, mas fruto de toda uma história, um contexto psicológico bem
peculiar. Mas será que podemos então por este motivo considerar o
indivíduo como inocente ou talvez menos culpado? Somente a Deus cabe
julgar, mas sabemos que não se trata de um ato involuntário ou de um
erro de julgamento, todo ato consciente traz suas consequências e
acreditando que Deus seja bom e justo, cofiamos que ele avaliará as
culpas e os méritos de cada um, em cada situação.
As diversas
situações em que a vida nos coloca servem para nos testar, testar nosso
caráter e permitir que com nosso livre arbítrio decidamos que caminho
tomar. Não apenas as situações extremas como o momento exato em que um
combatente põe o dedo no gatinho e decide ou não disparar uma arma que
causa uma enorme destruição, mas também nas pequenas situações do dia a
dia que, caso tomemos as decisões erradas, aos poucos vão nos colocando
cada vez mais próximos do momento em que com um pequeno gesto
cometeremos um grande crime.
Vejamos o exemplo do piloto. Ele
teve um dia de decidir se entraria ou não em uma instituição que tem a
nobre missão de proteger a nação, mas cuja especialidade consiste em
matar pessoas; decidir tentar uma vaga num alto posto dentro das forças
armadas com alto status, mas cuja função é pilotar uma verdadeira arma
de destruição em massa, uma “Top Gun”; decidir contribuir no combate a
extremistas (pelo menos na visão de seus comandantes) mas colocar em
risco a vida de pessoas inocentes; até o momento em que tem que decidir
entre puxar o gatilho ou abortar a missão, denunciando seus superiores
por apontarem uma escola cheia de crianças como alvo e pondo fim assim à
sua carreira militar.
No outro extremo dos exemplos que citamos,
temos o servidor público que precisa escolher entre se curvar às
conveniências políticas de seus chefes (mais preocupados com suas
próprias carreiras) que ordenam aos subordinados no serviço público que
escolham o caminho mais conveniente, deixando de atender o público como
deveriam para não acumular serviço e manter as aparências do bom
andamento da repartição, com metas e estatísticas mentirosas, ou, por
outro lado, escolher atender o público com a devida atenção, causando
conflitos entre este servidor e seus dirigentes. Assim como no caso do
piloto de avião, estas pequenas escolhas vão aos poucos definindo o
comportamento e o ambiente social e psicológico destas instituições. Os
grandes atos criminosos e as grandes injustiças praticadas por pessoas
que acreditam apenas estarem cumprindo o dever, são o resultado de uma
longa série de adaptações às conveniências sociais por parte dos membros
destas organizações.
O conhecimento da vida espiritual nos
mostra que na grande maioria das vezes fomos nós mesmos que escolhemos
enfrentar estes testes do nosso caráter. Vindo de uma passado em que
cometemos grandes injustiças e depois tentamos nos esquivar atribuindo a
culpa de nossas falhas às situações em que fomos colocados no
desenrolar de uma encarnação passada, escolhemos no plano espiritual
enfrentar novamente estes testes numa próxima encarnação, para realmente
colocar à prova o nosso aprendizado. Talvez tenhamos afirmado no
passado, quando no plano espiritual, que não havíamos desejado cometer
estas injustiças de forma consciente, afirmamos também termos aprendido a
lição e que não ousaríamos nos curvar às conveniências e voltar a
cometer estas faltas no futuro. Então no presente em uma nova encarnação
somos então novamente colocados dentro de situações similares para mais
uma vez testar o nosso caráter nas pequenas escolhas do dia-a-dia.
Por
isso a importância de se refletir a cada passo de nossas jornadas, cada
pequena decisão aparentemente sem importância, mas que pode no futuro
vir a prejudicar o próximo. Seja como patrão que respeita não só as leis
mas também as necessidades de seus empregados ou como empregado que
desempenha o seu trabalho com dedicação zelando pelos interesses dos
seus empregadores. Seja como agente público subalterno ou em função de
direção que cumpre o seu dever sem se curvar à conveniências e pressões
políticas.
Ao seguir este caminho, o caminho da consciência
tranquila e do respeito ao próximo, muito provavelmente perderemos as
melhores oportunidades dentro de alguma carreira, seremos provavelmente
substituídos por alguém mais ambicioso e mais disposto a “ganhar o mundo
e perder a sua alma”, ficaremos longe das premiações públicas,
perderemos promoções e aumentos. Mas é justamente nisto que consiste a
vida do bom cristão, que busca a construção de uma sociedade mais justa
para todos, o bom cristão está sempre disposto a sofrer um prejuízo
pessoal em favor do bem coletivo, conforme encontramos em O evangelho
Segundo o Espiritismo, “O homem de bem... sacrifica sempre o seu
interesse à justiça.”
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