sábado, 21 de janeiro de 2017

Escolhas

Um piloto de um caça sobrevoa uma zona de conflito, ele olha para baixo e vê que seu alvo é uma escola, a escola está cheia de crianças em horário de aula, ele então segue com o plano, mira e dispara míssil que mata imediatamente 25 pessoas, sendo 15 delas crianças. Um dos poucos repórteres que ainda se arriscavam a permanecer na região filma o resgate das vítimas, a notícia e as imagens correm o mundo e muitos se perguntam: O que leva uma pessoa a cometer uma atrocidade destas?

Imaginemos por exemplo que este mesmo piloto um dia com 8 anos de idade e estudando em uma escola similar resolvesse acender o pavio de uma bomba para, de forma planejada e consciente, matar igualmente cerca de 25 pessoas. Seria imediatamente considerado um doente, um psicopata e logo seria levado para uma instituição para tratamento de doentes mentais perigosos. Mas não é o caso deste piloto de avião, ele foi uma criança normal, se comportava normalmente, tinha amigos e era considerado um ótimo filho pela sua mãe (claro que todas mães sempre acham seus filhos ótimos), ele chegou à idade adulta e resolveu seguir a carreia militar, o que encheu sua família de orgulho.

Quando criança ele assistiu ao filme Top Gun – Ases Indomáveis e como todo menino daquela época ele também sonhou em ser um piloto de caça. E após anos de treinamento chegou o dia em que todo homem das armas espera a oportunidade de ser útil, de mostrar sua coragem e lealdade, de fazer valer seus anos de treinamento e dedicação, de provar para todos o seu valor justificando o seu alto status dentro da carreira das forças armadas que sempre lhe renderam um bom salário e uma boa condição social para sua família. Iniciada uma guerra ele primeiro faz missões de reconhecimento com moderno equipamento fotográfico, enfrenta a artilharia anti-aérea, vê companheiros seus serem abatidos e morrerem nas mãos do inimigo. Ele despeja bombas sobre as linhas inimigas no meio do deserto e vai se acostumando com o caos e a morte.

Este piloto começa então a imaginar que civis podem estar entre as vítimas de seus ataques no chamados “danos colaterais”, mas sua vontade de cumprir o dever para com seus superiores e para com a nação fala mais alto. Como todo piloto neste tipo de missão ele é cobrado a acertar os alvos designados sem nunca questionar, ele não pode nunca falhar em uma missão, não pode errar o ponto exato designado, não pode nunca abortar e simplesmente voltar para casa. Nestas missões ele arrisca sua vida guiando uma aeronave de muitas dezenas de milhões de dólares, ele gasta tempo e combustível voando durante horas até a região dos alvos, enquanto seus companheiros de luta no solo morrem esperando pelo apoio aéreo.

Lá de cima ele enxerga o alvo e percebe que o que foi designado como um possível esconderijo de “terroristas” se trata de uma escola em uma área residencial, pelo dia e horário pode-se imaginar que estejam havendo aulas, vê minúsculos pontos que parecem ser pessoas e pode muito bem imaginar que sejam crianças. Mas ele segue com sua missão, dispara o míssil e comete esta atrocidade que só poderia ser obra de um psicopata muito doente, ele matou 25 pessoas sendo 15 crianças e não existe justificativa que se possa dar para se cometer tal crime.

Esta história é muito parecida com muitas outras que acontecem todos os dias nas guerras pelo mundo afora, mas também podemos fazer uma analogia com milhares de outras situações do dia a dia em todos os lugares e contextos, onde um indivíduo racional, inteligente, razoavelmente honesto, sóbrio e cumpridor de seus deveres vai aos poucos sendo levado pelas conveniências e pressões sociais a cometer os atos mais absurdos. Seja o policial que mata a sangue frio o bandido desarmado, o político que faz acordos sujos que tiram da saúde milhões que poderiam salvar muitos mais do que 25 pessoas. O juiz ou promotor que condenam sem piedade o homem humilde que poderiam muito bem terem percebido ser inocente. O servidor que trata o público com desleixo e insensibilidade, causando pequenos prejuízos a milhares de pessoas.

Os indivíduos que cometem estes atos, dos mais graves aos mais comuns, não passam a agir com este desrespeito pelo próximo de uma hora para a outra, estas são situações que são construídas ao longo de muitos anos, são atos conscientes, mas fruto de toda uma história, um contexto psicológico bem peculiar. Mas será que podemos então por este motivo considerar o indivíduo como inocente ou talvez menos culpado? Somente a Deus cabe julgar, mas sabemos que não se trata de um ato involuntário ou de um erro de julgamento, todo ato consciente traz suas consequências e acreditando que Deus seja bom e justo, cofiamos que ele avaliará as culpas e os méritos de cada um, em cada situação.

As diversas situações em que a vida nos coloca servem para nos testar, testar nosso caráter e permitir que com nosso livre arbítrio decidamos que caminho tomar. Não apenas as situações extremas como o momento exato em que um combatente põe o dedo no gatinho e decide ou não disparar uma arma que causa uma enorme destruição, mas também nas pequenas situações do dia a dia que, caso tomemos as decisões erradas, aos poucos vão nos colocando cada vez mais próximos do momento em que com um pequeno gesto cometeremos um grande crime.

Vejamos o exemplo do piloto. Ele teve um dia de decidir se entraria ou não em uma instituição que tem a nobre missão de proteger a nação, mas cuja especialidade consiste em matar pessoas; decidir tentar uma vaga num alto posto dentro das forças armadas com alto status, mas cuja função é pilotar uma verdadeira arma de destruição em massa, uma “Top Gun”; decidir contribuir no combate a extremistas (pelo menos na visão de seus comandantes) mas colocar em risco a vida de pessoas inocentes; até o momento em que tem que decidir entre puxar o gatilho ou abortar a missão, denunciando seus superiores por apontarem uma escola cheia de crianças como alvo e pondo fim assim à sua carreira militar.

No outro extremo dos exemplos que citamos, temos o servidor público que precisa escolher entre se curvar às conveniências políticas de seus chefes (mais preocupados com suas próprias carreiras) que ordenam aos subordinados no serviço público que escolham o caminho mais conveniente, deixando de atender o público como deveriam para não acumular serviço e manter as aparências do bom andamento da repartição, com metas e estatísticas mentirosas, ou, por outro lado, escolher atender o público com a devida atenção, causando conflitos entre este servidor e seus dirigentes. Assim como no caso do piloto de avião, estas pequenas escolhas vão aos poucos definindo o comportamento e o ambiente social e psicológico destas instituições. Os grandes atos criminosos e as grandes injustiças praticadas por pessoas que acreditam apenas estarem cumprindo o dever, são o resultado de uma longa série de adaptações às conveniências sociais por parte dos membros destas organizações.

O conhecimento da vida espiritual nos mostra que na grande maioria das vezes fomos nós mesmos que escolhemos enfrentar estes testes do nosso caráter. Vindo de uma passado em que cometemos grandes injustiças e depois tentamos nos esquivar atribuindo a culpa de nossas falhas às situações em que fomos colocados no desenrolar de uma encarnação passada, escolhemos no plano espiritual enfrentar novamente estes testes numa próxima encarnação, para realmente colocar à prova o nosso aprendizado. Talvez tenhamos afirmado no passado, quando no plano espiritual, que não havíamos desejado cometer estas injustiças de forma consciente, afirmamos também termos aprendido a lição e que não ousaríamos nos curvar às conveniências e voltar a cometer estas faltas no futuro. Então no presente em uma nova encarnação somos então novamente colocados dentro de situações similares para mais uma vez testar o nosso caráter nas pequenas escolhas do dia-a-dia.

Por isso a importância de se refletir a cada passo de nossas jornadas, cada pequena decisão aparentemente sem importância, mas que pode no futuro vir a prejudicar o próximo. Seja como patrão que respeita não só as leis mas também as necessidades de seus empregados ou como empregado que desempenha o seu trabalho com dedicação zelando pelos interesses dos seus empregadores. Seja como agente público subalterno ou em função de direção que cumpre o seu dever sem se curvar à conveniências e pressões políticas.

Ao seguir este caminho, o caminho da consciência tranquila e do respeito ao próximo, muito provavelmente perderemos as melhores oportunidades dentro de alguma carreira, seremos provavelmente substituídos por alguém mais ambicioso e mais disposto a “ganhar o mundo e perder a sua alma”, ficaremos longe das premiações públicas, perderemos promoções e aumentos. Mas é justamente nisto que consiste a vida do bom cristão, que busca a construção de uma sociedade mais justa para todos, o bom cristão está sempre disposto a sofrer um prejuízo pessoal em favor do bem coletivo, conforme encontramos em O evangelho Segundo o Espiritismo, “O homem de bem... sacrifica sempre o seu interesse à justiça.”

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