Ao
orarmos, penetramos de alguma forma no universo da meditação. Com o
exercício disciplinado dos pensamentos, podemos chegar aos melhores
resultados de uma prece. Contudo, o domínio dos pensamentos,
considerando a cultura ocidental, é de terrível dificuldade. Quase
sempre nós ocidentais construímos pensamentos repletos de ideias vagas,
ingênuas, sensuais, arremessamos censuras, mantemos anseios
utilitaristas, entulhamos as descargas neurológicas que geram amplo
consumo de energia física e mental. Certamente a concentração
(meditação) no ambiente adequado pode aliviar a tensão emocional e
patrocinar um nível de estabilização e alívio psíquico que tende a
refletir no bem-estar físico e espiritual.
Atraiu-nos
a atenção a programação do Centro de Educação Infantil Lar de Crianças
Ananda Marga, creche municipal localizada no bairro Jardim Peri Alto, na
zona norte de São Paulo, administrada pela ONG Amurt-Amurtel, adotando
uma linha pedagógica neo-humanista, que estimula o aluno a sentir-se
como integrante da natureza que o acolhe. Oferece aulas de yoga e
meditação às cerca de 110 crianças matriculadas nessa instituição. Todos
os alunos entre zero e três anos de idade realizam prática de
relaxamento e massagem. Até os bebês do berçário passam pela técnica.
A
proposta é sedutora, pois cremos que uma legítima educação é aquela em
que os poderes espirituais regem a vida social. Por outro lado, recordo
que no meu tempo de criança, a pureza delas era uma realidade
mensurável. A perspectiva da criança não ultrapassava os simples livros
didáticos, um único humilde caderno e brinquedos baratos. Para
repreendê-las e educá-las, às vezes bastava um olhar firme dos pais.
Porém, aquele imaginário infantil, de quietude e sonho ingênuo,
desmoronou sob o impacto da era do sensualismo, da violência, do
materialismo.
Todo
processo de educação constitui-se na base da formação de uma sociedade
saudável. A tarefa que nos cumpre realizar é a da educação das crianças
pelo exemplo de total dignificação moral. Nesse sentido, os postulados
Espíritas são antídotos contra todos os venenosos ardis humanos, visto
que aqueles que os conhecem têm consciência de que não poderão se eximir
das suas responsabilidades sociais, sabendo que o futuro é uma
decorrência do presente. Deste modo, é urgente identificarmos no coração
infantil o esboço da futura geração saudável.
Como
estamos tratando de educação, evidentemente a educação espírita deve
ser mantida restrita aos centros espíritas (para os espíritas), ao lar
e, sobretudo, desprovida da roupagem imprópria do sectarismo e do
misticismo. O núcleo familiar é o primeiro grupo social do qual
participamos e recebemos, não somente herança genética ou de bens
materiais, mas principalmente moral. A educação espírita aí tem um papel
importantíssimo na formação do caráter do indivíduo, ou melhor, na
formação da pessoa como um todo
No
que reporta à prática meditativa de vínculos orientalistas adotada pela
creche municipal de São Paulo, esta não contém conexões diretas com as
finalidades espíritas. Não constam nos cânones das Obras Básicas as
técnicas para meditação e yoga, embora não haja rigorosa
incompatibilidade com os princípios doutrinários, até porque todo e
qualquer exercício que favoreça o equilíbrio espiritual deve ou pode ser
estimulado. Entretanto, não se deve confundir as irradiações mentais
através da prece com a meditação mística, mormente aplicada pela yoga.
Em razão disso, a Doutrina dos Espíritos recomenda que não se instale
nos centros espíritas salas específicas para tais meditações (yoga,
relaxamento, defumação com ervas, shantala, massagem indiana etc.).
Não
obstante haja instituições “espíritas” (não deveria haver) que promovem
cursos para técnicas de meditação com base na cultura oriental, é
necessário ter cuidado para que esses métodos não descaracterizem a
proposta espíritas, até porque as crenças vinculadas às práticas de
meditações místicas têm suas próprias instituições, destinadas aos seus
adeptos, e certamente nada impede que os “espíritas” ajustados com essas
propostas busquem os núcleos não espíritas adequados e aí meditem
quando, como e quanto desejarem.
Finalmente,
meditar é importante, sem sombra de dúvida, desde que não neutralize
nossos afazeres do ganha pão, neutralizem nossos braços e mãos, nem nos
faça abdicar dos convites dos Benfeitores Espirituais, uma vez que eles
apontam a rota segura de uma meditação produtiva, que não nos hipnotiza
com técnicas que centram atenções quase sempre exclusivas em nós mesmos.
Não podemos esquecer que Jesus nos conclamou a amar o próximo como a
nós mesmos e não o oposto, ou seja, todo o amor, júbilo, contentamento
que ansiamos para nós, devemos em condição de equidade ao nosso próximo.
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