domingo, 6 de março de 2016

O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU


(jcl-ribpreto-2006)

      Amigos, coloco este tópico no quadro "espiritualismo" já que contém ensinamentos de Paulo, com quem a doutrina espírita, aliás, todas as doutrinas cristãs, não simpatizam e não aceitam muitos de seus ensinamentos.     
                                 
       Infelizmente, as igrejas cristãs não divulgam muitos dos mais importantes ensinamentos de Jesus. Nelas, ensina-se sobre a vida desse homem iluminado, mas quase nada sobre aquilo que ele, em seu tempo, tentou ensinar e fazer com que os discípulos e o povo compreendessem. Ele ensinou sobre o reino de Deus, enquanto as igrejas cristãs ainda hoje quase só ensinam sobre sua vida.
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       Jesus teve o percebimento de que ele era a própria divindade, ‘eu e o Pai somos um’. Compreendeu, então, e ensinou que o caminho é para dentro, para o interior do próprio ser humano, e mostrou isso ao afirmar, de modo claro, que ‘o eu é o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão pelo eu’, como igualmente ensinaram outros, entre eles S. Agostinho ao dizer que, depois de muito procurar por Deus fora dele mesmo, nas coisas do mundo, foi encontrá-lo dentro dele mesmo. 

       Do mesmo modo, Teresa de Ávila dizia ser absurdo buscarmos Deus fora de nós, nos céus; que devíamos, antes, procurá-lo dentro de nós mesmos, pois é em nossa alma que o Senhor habita, como Paulo também falou: ‘O Senhor habita em vossos corações”, “Vós sois o templo do Altíssimo’.

       Jesus ensinou a nos fecharmos em nós mesmos (nada de fora a nos perturbar) e, em oculto, em segredo, isto é, em silêncio total, inclusive mental, ‘orarmos’ ao Pai que, em oculto, ali dentro, nos ouve, mas essa oração não é aquilo que imaginamos ser. 

       Como ensinou Teresa de Ávila, santa e doutora teologal dos católicos, é a ‘oração de recolhimento’, na qual se recolhem todos os sentidos, lembranças, expectativas, enfim, todas as operações mentais; se bem realizada, entra-se, espontaneamente, na ‘oração de quietude’, na qual há total silêncio mental; o cérebro, a mente, cessam sua ação e o ego se afasta. E, quando o ‘eu não é, Deus é’. O único obstáculo para a aproximação do divino é o ego, com todas suas idiossincrasias (maneira própria de sentir, de compreender; lembranças, expectativas, ilusões, crenças, ignorância, remorsos, emoções, culpas, desejos, medos), que poluem a consciência localizada (individual), não permitindo que ela perceba a divindade que nela habita.

       Jesus disse: ‘ninguém vai ao Pai senão por mim (pelo Eu)’, e ‘eu sou (o Eu é) o caminho, a verdade e a vida’, isto é, no Eu está o caminho, que é, pois, para dentro de nós mesmos; aí está a verdade e a vida. Ele falou também: ‘não direis que o reino está ali ou acolá, pois o reino de Deus já está dentro de vós’, como Paulo, que disse muitas vezes: ‘não sabeis que sois o templo do Altíssimo e que o Altíssimo habita em vós?’

       As igrejas esqueceram esses ensinamentos e se ativeram à história da vida de Jesus, não transmitindo as coisas profundas que Jesus tentava ensinar ao povo. No cristianismo primitivo, o cristianismo dos primeiros séculos, o objetivo primordial da religião era re-ligar a criatura ao Criador, isto é, levar o ser humano à união pessoal com Deus. Teresa de Ávila, doutora teologal da igreja de Roma, ensinava q essa união pode se dar através da ‘oração de recolhimento’ e da ‘oração de quietude’; por uma extensa gama de fatores, a igreja, entre outras coisas, esqueceu de ensinar.

       Na ‘oração de recolhimento’, a pessoa deve ‘recolher’ (procurar esquecer) suas faculdades de pensar, raciocinar, sentir, imaginar, recordar, ter expectativas, imaginações, desejos e emoções, e os sentidos, pois tudo isso é apenas obstáculo à oração. Se a oração de recolhimento for bem feita, redundará na ‘oração de quietude’, isto é, na quietude total da mente e do cérebro, que, então, sem nada que os perturbe ou ‘polua’, ficam em silêncio. Ocorre, daí, na mente, um total vazio, com a possibilidade de vir a ser preenchido por aquilo a que denominamos Deus. Como disse Ken Wilber, ‘o vazio que você vê quando olha atento para o nascedouro dos pensamentos pode, num relâmpago, mostrar a Realidade’. E como João da Cruz ensinou: ‘Na escuridão, a luz’.

       A oração de quietude nada mais é que a ‘meditação’ dos tempos antigos e atuais; exige a preparação, que consiste no recolhimento, ou cessação, sem esforço, de qualquer operação mental. Cessando o movimento mental, sobrevirá a quietude do cérebro, isto é, cessa a interferência do ‘eu/ego’ e, como afirma o profeta bíblico, ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus!’, isto é, quando o ego é afastado de nossa percepção, o que percebemos é o próprio Deus. Quando ‘o eu não é, Deus é’. O obstáculo que nos impede a percepção do divino é, portanto, nosso próprio ego, a nossa mente localizada, com todo o seu conteúdo condicionado.

       Para conseguir esse estado de silêncio, é necessário que o pensamento, e tudo o mais que passa pela mente, cessem, e a atenção é fator decisivo para esse fim. A primeira lição de Teresa de Ávila, às noviças, era ‘atenção! atenção! atenção!’, ao momento presente, ao aqui-agora, sem lembranças, ressentimentos ou remorsos acerca do passado, e sem devaneios, sonhos ou expectativas, desejos e imaginações sobre o futuro. Daí ter Jesus ensinado que ‘a cada dia basta seu cuidado’ e que não nos preocupássemos com muitas coisas, já que ‘os lírios do campo e as aves do céu nem fiam nem plantam’, mas têm o abrigo e o alimento necessários, supridos que são pelo eterno e único supridor.

       Um dos principais ensinamentos do iluminado, tanto que muitas vezes exorta-nos sobre isso, foi sobre a importância da atenção. Nesse sentido, a parábola das virgens insensatas; a do servo fiel, que aguardava a volta do patrão, e outras mais. Jesus enfatizou, sobremaneira, a realização do reino de Deus (‘buscai em primeiro lugar o reino de Deus’) afirmando que ele já está dentro de nós (‘não direis: ‘ei-lo aqui’, nem ‘ei-lo acolá porque o reino de Deus está dentro de vós’); que a percepção dessa realidade é a coisa mais importante que o ser humano tem a fazer (Jung) (‘o demais vos virá por acréscimo’), tanto que devemos, até mesmo, abandonar tudo o mais para termos esse percebimento. Assim, as parábolas do comprador de pérolas e a do homem que encontrou um tesouro no campo...

       Fez ver que esse tesouro é mais importante que tudo o mais, a nada se comparando, em particular quando aconselhou a ‘buscar, em primeiro lugar, o reino de Deus’, porque, encontrado o reino, a iluminação, ‘tudo o mais virá por acréscimo’.

       Disse, também, quando, pregando na sinagoga, lhe falaram que sua mãe e seus irmãos o procuravam: ‘Quem são minha mãe e meus irmãos? Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem as minhas palavras e as cumprem’, isto é, aqueles que buscam e, eventualmente, encontram o reino de Deus, pois esses seguiram seu conselho, são de sua mesma natureza, perceberam o que ele percebeu, realizaram o reino em si mesmos e, desse modo, compreenderam e podem também ensinar aquilo que ele ensinou.

       Também, em afirmações aparentemente absurdas, disse que para essa busca, se preciso for, devemos ‘abandonar pai e mãe’ e que ele ‘não veio trazer a paz, mas a espada’, numa indicação de que aquele que deseja encontrar o ‘reino’ deve se violentar nos costumes e apegos, e não fazer o que o homem comum faz, porque, como Paulo ensinou, ‘a sabedoria de Deus é loucura para os homens; e a sabedoria dos homens é estultícia para Deus’.

       Jesus ensinou, também, que o homem e Deus são um só ser, uma só mente, quando afirmou que ‘eu e o Pai somos um’, como também Paulo, em suas epístolas, dizendo ‘já não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim’, que somos ‘co-herdeiros’ do reino e que somos iguais a Jesus, pois ‘se nós não ressuscitarmos, nem Jesus ressuscitou’. 

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