É o Mistério quem aciona
os testemunhos que nos inspiram, pois estão eles penetrados pelo suor e
pela alegria, cheirando ora a tristeza, ora impregnados de rosa
vermelha, tingidas as pétalas por essas emoções cálidas que experimentam
homens e mulheres dentro e fora de casa.
Refulge de súbito um
testemunho furta-cor como um corpo, distinto de dia e de noite, com
manchas de medo, paisagens de lições, angústias e declarações de sonhos,
um perene passado-e-presente – a humanidade que se reconstrói
indefinidamente diante de incertezas e amor enquanto a lua no céu brilha
infinita.
Sempre entendi a felicidade como algo biográfico,
contudo, um bem a ser conquistado árdua e perenemente, dada a sua
natureza furta-cor, fugidia (logo um conceito fortemente relacionado às
utopias).
Não adiro, desse modo, à crença atual do disseminado
“direito à felicidade” e, aqui, como algo que deve ser desfrutado por
todos os mortais a qualquer custo, o que, entre outras coisas funestas,
está a assegurar principalmente o empobrecimento da nossa subjetividade e
a medicalização do sofrimento cotidiano.
Acho estranho que as
pessoas queiram viver apartadas de conflitos, angústias, ansiedades,
frustrações, os meios legítimos que a existência oferece para o
aperfeiçoamento da nossa condição humana, e, ainda, desde que estejamos
abertos a estados de dúvidas e perguntas, como um processo de
subjetivação interminável.
Estes dias, disse a um amigo: você tem
o pleno direito de sofrer, de se sentir mal, frustrado, magoado e cheio
de raiva. É normal que você sofra e se sinta péssimo porque faz apenas
dois meses que sua mulher abandonou seus filhos e sua casa.
Insisto.
Podemos, sim, nos permitir licença para experimentar tristeza,
desânimo, saudade, decepção, estados íntimos indistintos que nos dominam
eventualmente, pois o planeta não é a Disneylândia.
Melhor
prestar atenção, estamos imersos em uma cultura do aprendizado, ainda
que queiram, através de um modo contemporâneo (equivocado) de conceber
felicidade, nos incentivar a permanecer atolados em uma cultura do
esquecimento, cujo paradigma anti-humano se põe avesso à necessidade
(humana) de experimentar lições e construir lembranças.
Para 2015
podemos, então, nos filiar ao singelo direito à infelicidade,
incorporando a resolução de respeitar o quinhão de sombra que nos
impregna às vezes quando somos visitados por sofrimentos que poderão, se
enfrentados de coração/mente abertos, instruir recursos para prover uma
existência com mais significado e valor.
Certamente, estar
disponível ao direito de ser infeliz ajuda a pessoa a resistir à pressão
da pressa da nossa época, que cobra soluções imediatas, muitas vezes
impeditivas da oportunidade autêntica de aproveitar o dia de estar neste
mundo de cor cambiante, porém a depender (também) do observador e de
suas composições reflexivas...
Eugênia Pickina
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