domingo, 1 de março de 2015

Uma resolução: licença para ser infeliz

É o Mistério quem aciona os testemunhos que nos inspiram, pois estão eles penetrados pelo suor e pela alegria, cheirando ora a tristeza, ora impregnados de rosa vermelha, tingidas as pétalas por essas emoções cálidas que experimentam homens e mulheres dentro e fora de casa.

Refulge de súbito um testemunho furta-cor como um corpo, distinto de dia e de noite, com manchas de medo, paisagens de lições, angústias e declarações de sonhos, um perene passado-e-presente – a humanidade que se reconstrói indefinidamente diante de incertezas e amor enquanto a lua no céu brilha infinita.

Sempre entendi a felicidade como algo biográfico, contudo, um bem a ser conquistado árdua e perenemente, dada a sua natureza furta-cor, fugidia (logo um conceito fortemente relacionado às utopias).

Não adiro, desse modo, à crença atual do disseminado “direito à felicidade” e, aqui, como algo que deve ser desfrutado por todos os mortais a qualquer custo, o que, entre outras coisas funestas, está a assegurar principalmente o empobrecimento da nossa subjetividade e a medicalização do sofrimento cotidiano.

Acho estranho que as pessoas queiram viver apartadas de conflitos, angústias, ansiedades, frustrações, os meios legítimos que a existência oferece para o aperfeiçoamento da nossa condição humana, e, ainda, desde que estejamos abertos a estados de dúvidas e perguntas, como um processo de subjetivação interminável.

Estes dias, disse a um amigo: você tem o pleno direito de sofrer, de se sentir mal, frustrado, magoado e cheio de raiva. É normal que você sofra e se sinta péssimo porque faz apenas dois meses que sua mulher abandonou seus filhos e sua casa.

Insisto. Podemos, sim, nos permitir licença para experimentar tristeza, desânimo, saudade, decepção, estados íntimos indistintos que nos dominam eventualmente, pois o planeta não é a Disneylândia.

Melhor prestar atenção, estamos imersos em uma cultura do aprendizado, ainda que queiram, através de um modo contemporâneo (equivocado) de conceber felicidade, nos incentivar a permanecer atolados em uma cultura do esquecimento, cujo paradigma anti-humano se põe avesso à necessidade (humana) de experimentar lições e construir lembranças.

Para 2015 podemos, então, nos filiar ao singelo direito à infelicidade, incorporando a resolução de respeitar o quinhão de sombra que nos impregna às vezes quando somos visitados por sofrimentos que poderão, se enfrentados de coração/mente abertos, instruir recursos para prover uma existência com mais significado e valor.

Certamente, estar disponível ao direito de ser infeliz ajuda a pessoa a resistir à pressão da pressa da nossa época, que cobra soluções imediatas, muitas vezes impeditivas da oportunidade autêntica de aproveitar o dia de estar neste mundo de cor cambiante, porém a depender (também) do observador e de suas composições reflexivas...


          Eugênia Pickina

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