Foi o caso de Antônio, um
menino bem magro, cujas notas vermelhas no boletim revelaram não um
transtorno, mas um testemunho audível da monotonia do currículo escolar
que fazia seu corpo triste, porém seu olhar e perguntas ruidosos em
demasia.
Francamente por ele e por certos golpes do destino
contra os quais é fecundo lutar, ainda que haja uma conspiração em
andamento, continuo a insistir no tema, procurando favorecer perguntas
contra o uso do metilfenidato sobre o cérebro em formação das crianças e
que no País não para de crescer, sobretudo em algumas regiões.
Não
são apenas os professores (escola), os pais também, infelizmente,
passaram a cobrar diagnóstico de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade) e medicamento (Ritalina/Concerta) para “resolver” os
conflitos na escola e estimular a quietude no espaço doméstico.
Primeira pergunta: por que é difícil escutar o que uma criança está dizendo com seu comportamento?
Muitos
pais intolerantes (e quiçá ignorantes) andam utilizando o diagnóstico
da hiperatividade como “licença” para entulhar seus filhos de remédio e
mantê-los tranquilamente “adestrados”.
E deixando de lado as
coisas de criança, confissão de intenção: creio que isso dá aos
pais/cuidadores as justificativas que lhes furtam o desafio de uma
realidade dura: ter filhos gera trabalho cotidiano e impor limites, por
sua vez, exige paciência, atenção e muita dedicação.
Segunda pergunta: o que é uma criança hiperativa?
Terceira pergunta: a resposta da pergunta anterior é inquestionável?
Caso
as pessoas investiguem o caminho que leva ao diagnóstico de TDHA
(Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) temos na maioria das
situações nacionais duas opções: a) entre as crianças clientes do
sistema privado de ensino, e que leva ao resultado da prescrição da
droga da obediência, o caminho se perfaz do seguinte modo: a escola
encaminha a criança ao psicólogo e este ao neuropediatra – ou
diretamente ao neuropediatra –, que prescreve o medicamento para que a
grande transformação aconteça e, em consequência, a criança, sem
desejos, passe a ser produtiva; b) já no caso das crianças usuárias da
rede pública de ensino, o roteiro que tem como alvo a prescrição do
metilfenidato obedece a esses passos: a escola encaminha a criança
indisciplinada/desatenta ao médico, quem prescreve a droga da
obediência, ou aciona o conselho tutelar. Mas, no final, a criança está
no geral sujeita ao uso da droga legal.
Quarta pergunta: não é a droga da obediência uma reedição da pedagogia negra?
As
crianças, gente de carne e osso, gostam de se deleitar nas coisas
simples e, sem embaraços, brincar e perguntar, gravitando nos seus
mundos de faz de conta, provando os ritmos da vigília, pois tudo é novo,
os enigmas das cidades e da natureza – pedras, bichos, árvores, lagos, a
chuva que cai da nuvem, o sol, as estrelas, o desejo bom por elas
invocado.
Também por isso, pelo desconcerto da infância, seus
enigmas e inocência, considero que há muitos modos de viver um vida. Os
pais, em consequência, podem sim distinguir a diferença entre fórmulas
repetitivas, as quais do mesmo jeito que outrora, nas escolas antigas,
regulam o argumento da produção, cuja moralidade, aparentemente neutra,
costuma reduzir crianças a cacos, elas que insistem em se engajar no
mundo (agora) de novas maneiras.
Não sei, mas creio que Rubem
Alves estava certo quando dizia que “também a morte ama o saber”:
metilfenidato (algo similar à corrida armamentista)... Droga da
obediência, que mata na criança a licença para usufruir da infância,
tempo que não é mágico, nem fácil, mas deve ser apoiado como um período
destinado ao desenvolvimento do corpo de carne, mas também da alma
acesa.
Quinta pergunta: o que ocorrerá com essa geração legalmente drogada no futuro?
Sexta
pergunta: e o que tudo isso explica sobre nós, os adultos? Será que os
pais/cuidadores que aceitam submeter (suas) crianças à droga da
obediência serão mais tarde compreendidos apenas pelo dever a serviço de
um “seguro” crescimento, ou (auto)condenados pelo desamor ao prelúdio
da vida?
Parece coisa absurda, mas como um perigo facilmente
evitado, na sociedade pós-industrial, em pleno século XXI, não estaria,
para crianças ricas e pobres, o caminho que leva à prescrição da droga
da obediência inspirado pela madrasta da Branca de Neve?
Eugênia Pickina
fonte : http://www.forumespirita.net/fe/accao-do-dia/infancia-coisa-nenhuma!/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+forumespirita+%28Forum+Espirita+email+news+100+topicos%29#.VNtimCz2Qz0
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