Quem nunca passou pela seguinte situação: Estar andando na rua e de
repente, ver uma pessoa abandonada, sem condições dignas de vida humana.
É de doer o coração, não é verdade? Mas isso é algo do qual o ser
humanizado precisa também se libertar. Eliminando a mania do coitadismo,
que nada mais é do que enxergar coitados no mundo. Esse não é
verdadeiro sentimento de piedade. A piedade humana é fruto da razão
humana. E a razão humana, segundo à questão 75a é falseada pela má
educação e pelo orgulho.
Para entender isso, vamos relembrar a questão 132 do Livro dos espíritos:
132. Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos?
—
Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma
expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação.
É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia
com a matéria essencial do mesmo, afim de nele cumprir, daquele ponto de
vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra
geral, também progredir.
Vamos entender primeiro o que é ‘sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea’.
O
termo ‘vicissitudes’ significa “alternâncias ou mudanças de situações”.
A questão é bem clara em mostrar que não está se referindo apenas às
vicissitudes de uma única existência, mas de várias existências, já que
ela está falando em “chegar à perfeição”.
Portanto, sofrer todas as
vicissitudes, é sofrer todas as “alternâncias de situações” possíveis
que a vida corpórea pode oferecer. Ou seja, viver ora no “céu”, ora no
“meio-termo” e ora no “inferno”.
Esse entendimento já elimina
por completo a ideia de ver no indigente, num mendigo, ou em qualquer
pessoa que esteja passando por uma tribulação difícil, um coitado, um
injustiçado, ou um sofredor. Pois ele, enquanto Espírito, está apenas
passando pela sua vez de enfrentar uma vicissitude negativa, sendo que
possivelmente, mais cedo ou mais tarde, pode ser chegada a vez de
qualquer um de nós, que por ventura esteja numa posição diferente. Mesmo
assim, vamos aprofundar a questão.
A ideia de que o outro está
sofrendo, é um reflexo das próprias criações mentais que o ser
humanizado concebe através da sua experiência individual, e não uma
visão correta da realidade. A emoção criada se reflete muito mais pelo
próprio desejo de não estar naquela condição, do que propriamente, o
sofrimento que aquele ser esteja, de fato, passando.
Essa é uma característica de egos muito apegados ao próprio desejo, disfarçada pela virtude da “piedade humana”.
A
experiência individual daquele ser humanizado, sobre o qual é feito tal
julgamento, pode apresentar aspectos tão diversos, que o sofrimento que
se imagina existir em tal vivência pode ser muito menor do que a razão
daquele que observa imagina, ou este sofrimento pode sequer existir. E
não raro, em tais situações podem-se encontrar exemplos da vivência da
genuína felicidade. Contudo, a visão humana da realidade, empobrecida
pelos preconceitos, pelos apegos, e pela má educação, vê em tais
situações uma “desgraça”, uma “carência”, e já logo conclui que aquele
outro ser humanizado está necessitando de caridade.
As
verdadeiras necessidades de uma pessoa se reconhece pelo conhecimento de
quem ela é, do que ela deseja, e do que ela precisa para a própria
felicidade.
Deus é o único que possui o conhecimento absoluto dessas
coisas. Portanto, apenas Deus sabe onde está e quando acontece a
“verdadeira caridade”.
E o que é a verdadeira caridade, ou a caridade de Deus? É tudo o que acontece.
Pois a justiça de Deus não permite que ninguém receba algo diferente daquilo que merece receber.
Se
a caridade de Deus é a única e verdadeira caridade, e ela está em todos
os acontecimentos da vida, o que seria isso que o ser humanizado chama
de “caridade”, que é doar um bem material ou psicológico para outro ser
humanizado?
Prova. Uma vivência onde ele encontrará uma oportunidade
de amar a Deus sobre todas as coisas, ou amar a si mesmo sobre todas as
coisas. De que maneira? Atribuindo o mérito da ação a si mesmo, ou a
Deus.
Sem perder o raciocínio, vamos analisar o segundo aspecto da questão:
‘Pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação’
O
que significa isso? Que todos são instrumentos passivos da obra de
Deus. Passivos, pois o verbo enfrentar (traduzido corretamente do
original em francês “à même de supporter”) não deixa dúvidas quanto a
isso.
Ou seja, a situação onde o indivíduo atribulado se
encontra, por si mesma, faz parte da obra de Deus. O simples fato de ele
estar em tal situação, ele está servindo à Deus.
Mas de que forma que um indivíduo como o que foi descrito estaria servindo à obra de Deus?
Exatamente
da forma que já foi explicada. Possibilitando que aqueles que estão na
posição de ajuda-los tenham a sua provação moral.
Portanto,
quando o ser humanizado andando na via pública, um indivíduo nessas
condições chama-lhe a atenção, o que é isso, em essência? É Deus
chamando a atenção desse ser e dizendo: Veja a minha obra!
O livre
arbítrio do Espírito encarnado consiste em escolher xingar a Deus,
criticar os políticos, criticar a vida, se auto-intitular reformador da
sociedade, ou louvar a Deus (em Espírito), pelo o que é visto, mesmo que
humanamente, a sua sensação não seja confortável.
Se apenas
Deus faz a caridade, e o ser humano cumpre as suas determinações, de
acordo com o merecimento daquele que recebe, onde estaria a piedade?
A
verdadeira piedade está na pureza da intenção sentida pelo Espírito
através do ato manifestado por Deus, e não no seu julgamento do fato.
Isto é, se Deus julga que um indivíduo merece receber um bem material ou
psicológico, e utiliza um ser humanizado como instrumento da doação, o
Espírito encarnado deve compreender que está fazendo a justiça de Deus e
não a sua própria vontade. Exercer a piedade sem a fé, é apenas atender
a um desejo egoísta. O desejo de não ver o outro sofrer, ou o desejo de
fazer a própria justiça.
Cumprir corretamente esse mandamento
não impede que o ego humano raciocine: “Doarei, porque ele precisa, e
quero que ele tenha”. Mas o Espírito encarnado escolherá determinado
sentimento, que pode ser moral, ou imoral.
Portanto, não se trata
do ato de dar ou não dar. Isto é prova de natureza física, portanto
fatal, e não prova de natureza moral. Ou seja, o que tiver que
acontece, vai acontecer, conforme a vontade de Deus. Mas trata-se da
vivência espiritual do ato.
Ver o próximo, isto é, aquele que
está passando por uma vicissitude negativa, como um coitado que depende
da sua ajuda, é rebaixá-lo. O amor puro se sustenta no pilar da
igualdade. Aquele que não vê no próximo um igual, não o está amando.
Está usando-o para se satisfazer. Pra se sentir superior, ou se sentir
caridoso.
Houve uma experiência em um centro Espírita que gosto
de relatar. As pessoas fizeram multirão de doações para moradores de
comunidades carentes no natal. Doaram roupas, alimentos, e ofereceram
lazer às crianças.
Era curioso ver, dentre doadores e donatários,
como alguns dos primeiros estavam com a cara emburrada, irritado com os
“problemas” do evento, enquanto muitos dos segundos estavam
espontaneamente contentes, apesar de estarem se submetendo a receber
doações. Isso me fez questionar: Coitado de quem? Quem são realmente os
verdadeiros necessitados?
Que a mão esquerda não saiba o que
faz a mão direita. Isto quer dizer, não fazer ostentação da caridade ao
outros, e nem a si mesmo. Mas fazer o bem sem nenhuma intencionalidade.
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