Os frutos da delinquência são a loucura de largo porte e o sofrimento sem conforto
"Há um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus..." - Joseph Brê[1]
Conclamando-nos
à indulgência, José, Espírito protetor, diz[2]: "lembrai-vos d`Aquele
que julga em última instância, que vê os movimentos íntimos de cada
coração e, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que
censurais, ou condena a que relevais, porque conhece o móvel de todos os
atos..."
Não resta dúvida quanto ao apoucamento generalizado que
o Espírito sofre ao prender-se ao corpo físico. Daí a nítida certeza de
que quaisquer julgamentos tornam-se parciais e arbitrários, porque
impossível se torna abarcar todas as premissas, isto é, a gênese
profundamente arraigada nos tecidos da Alma, donde resultam os inditosos
fastos que podemos observar à nossa volta. Podemos ilustrar tal
situação utilizando-nos da figura do "iceberg": a parte observada acima
da linha d’água é insignificante em relação à que está submersa. Assim é
como se nos oferecem à visão e compreensão as questões nas quais
pretendemos arbitrar. Impossível sermos justos!... Só Deus pode julgar
com absoluta precisão e justiça.
Joseph Brê, ao desencarnar,
encravou-se em angustiosa situação; inobstante ter sido aparentemente
honesto aos olhos dos homens, não o foi perante Deus.
Diz ele -
mediunicamente - em dorido testemunho feito à sua neta1: "aí, entre vós,
é reputado honesto aquele que respeita as leis do seu país, respeito
arbitrário para muitos. Honesto é aquele que não prejudica o próximo
ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra,
visto o código penal e a opinião pública não atingirem o culpado
hipócrita. Em podendo fazer gravar na pedra do túmulo um epitáfio de
virtude, julgam muitos terem pago a sua dívida à Humanidade! Erro!...
Não basta, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos
homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as Leis Divinas.
Honesto
aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor,
consagre a existência ao bem, ao progresso dos seus semelhantes; aquele
que, animado de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no
cumprimento dos deveres materiais, ensinando e exemplificando aos outros
o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição de
servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tempo;
ativo finalmente na prática do amor de Deus e ao próximo.
Confesso,
sem corar, que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade
necessária; que o esquecimento de Deus impeliu-me a outras faltas, as
quais, por não serem passíveis às leis humanas, nem por isso deixam de
ser atentatórias à lei Divina”.
Em estreita conexão com tal
depoimento, Joanna de Ângelis nos dá a conhecer a ignorada dimensão onde
estão alocados - sem se darem conta - os delinquentes que não se
consideram tais. Diz a lúcida Mentora[3]: "delinquem os que exploram a
ingenuidade dos jovens, arrojando-os nos antros da perdição; os que
usurpam as parcas moedas do povo, no comércio escorchante de mercadorias
de primeira necessidade; os profissionais liberais, que anestesiam a
dignidade, falseando o juramento que fizeram de prometer servir e honrar
o sacerdócio que abraçam, indiferentes, porém, aos problemas dos
clientes, protelando suas soluções à custa de largas somas com que
constroem sólidas fortunas, apesar de transitórias; os que espalham
ondas de inquietação, urdindo tramas que aliciam outros partidários de
emoção afetada; os que traem afetos que lhes dedicam confiança e
respeito; os maus administradores, que malversam os valores públicos e
deles se utilizam a benefício próprio, dos seus êmulos e pares; os que
conspiram, à socapa, contra as obras de benemerência e amor; e muitos,
muitos outros que são arrolados como dignos de bom conceito e que,
certamente, não cairão incursos nas legislações humanas, porque
disfarçados de homens probos, bem aceitos e acatados...
Não lograrão fugir de si mesmos, nem se libertarão dos conflitos que se lhes instalam n’alma.
Resguarda-te
do contágio da delinquência, preservando os teus valores morais, mesmo
que sejam de pequena monta; a tua posição social, embora não tenha
realce público; a tua situação econômica, apesar de caracterizada pela
pobreza; as tuas aspirações, mesmo que de pequeno porte, ligando-te, em
pensamento, ao compromisso do bem, que se irradia do Cristo, que
programou para o homem e a Terra, em nome do Pai, a felicidade e a
harmonia, através de métodos de dignificação, únicos, aliás, que
compensam em profundidade e perenemente.
Os frutos da delinquência são a loucura de largo porte, o sofrimento sem conforto, o suicídio, a morte violenta, nefasta...
Vive,
desse modo, as diretrizes do Evangelho e nunca te esqueças que, ao
defrontar um delinquente, seja em qual circunstância for, será muito
melhor ser-lhe a vítima do que seu algoz, conforme o próprio Mestre nos
ensinou com o exemplo da Cruz".
[1] - KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 51. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2003, cap. III-2, 2ª. parte.
[2] - KARDEC, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 129. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. X, item 16.
[3] - FRANCO, Divaldo. Luz viva. Salvador: LEAL, 1985, cap. XX.
Rogério Coelho
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