Desde a publicação do
livro Nosso Lar pelo espírito André Luiz, psicografado pelo médium Chico
Xavier, que o inferno católico transvestiu-se em ‘umbral’, alimentado
pelo imaginário dos ‘espíritas’ ainda arraigados à dogmática católica.
Por outro lado, a “cidade espiritual” denominada de “Nosso Lar“,
tornou-se o céu, cujo destino é almejado por todos aqueles que sonham
com a felicidade quando do retorno ao plano espiritual.
Logo no início da obra em comento, nos deparamos com o ‘umbral’, por
ser neste lugar de tormentos que se encontrava André Luiz em estado de
profunda perturbação.
Diante de seu relato, identifica-se de pronto a incontestável
semelhança com o ‘inferno’ católico, ao ser aquele descrito, como uma
região tenebrosa, com seres diabólicos, e sofrimentos acerbos.
“O autor espiritual assevera que é informado por Lísias (seu
orientador) que a localização do ‘umbral’ começa na crosta terrestre,
sendo uma zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a
atravessar as portas dos deveres sagrados” (...). (Nosso Lar, p. 79)
Esclarece o companheiro de André Luiz, que o Umbral funciona, como
região destinada a esgotamento de resíduos mentais: uma espécie de zona
purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das
ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime
ensejo de uma existência terrena“. (...) “Concentra-se aí, tudo o que
não tem finalidade para a vida superior, ressaltando que a Providência
Divina agiu sabiamente, permitindo se criasse tal departamento em torno
do planeta”. (Nosso Lar, p. 79/81)
Ao ser ‘retirado’ do umbral por Clarêncio, depois de oito anos de
sofrimento e loucura, relata André Luiz ter sido conduzido a uma cidade
espiritual, denominada Nosso Lar. A referida cidade tinha sua
organização política efetivada através de um Governador e de seus
Ministros.
Reportando-se ao atual Governador da cidade, André Luiz é informado por
Lísias, que o mesmo havia conseguido colocar ordem nos distúrbios e
cisões que turbavam a cidade, em razão de questões que envolviam a
“distribuição de alimentos” entre os Espíritos moradores de Nosso Lar.
Segundo sua narrativa, a cidade era de uma beleza impressionante, com
“vastas avenidas, enfeitadas de árvores frondosas. Ar puro, atmosfera de
profunda tranquilidade espiritual”. (Nosso Lar, p. 58)
O autor espiritual não se furta em descrever as belezas de Nosso Lar,
desde a arquitetura de seus prédios, seus imensos bosques e jardins com
flores exóticas e fontes de águas cristalinas, a beleza das obras de
arte e a elegância do mobiliário que guarneciam seus Ministérios e
casas, até as melodias sublimes ouvidas por todos os moradores no final
da tarde, ou quando das reuniões e preces.
Diante de tal cenário, a referida cidade tornou-se um paradigma de céu
para os “espíritas“, posto que, lá chegando, além dos cuidados
ministrados em seus excelentes hospitais, posteriormente tem-se a
possibilidade de morar em belas e confortáveis casas, juntamente com os
entes queridos, todos devidamente protegidos pelas altas e seguras
muralhas defensivas desta maravilhosa cidade, que tem o sugestivo nome
de ‘Nosso Lar‘.
Entretanto, na condição de espíritas, somos sabedores da necessidade de
um estudo constante e sistemático das Obras Básicas, para que possamos
de forma justa e lúcida avaliar as informações que nos chegam do plano
espiritual, através de mensagens mediúnicas, como é o caso da obra em
comento.
Para este intento, precisamos avaliar as informações recebidas tendo
como paradigma as Obras Básicas, posto que estas passaram pelo Controle
Universal das Comunicações Espíritas, como bem nos esclarece Allan
Kardec, o insigne Codificador da Doutrina dos Espíritos, na parte
introdutória de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Inicialmente, faremos uma breve análise do que nos dizem os Espíritos
Superiores em O Livro dos Espíritos, quando em seu Capítulo VI, trata da
“Vida Espírita“. Faremos a transposição literal de algumas perguntas
feitas por Kardec aos Espíritos Superiores, com suas respectivas
respostas, e em seguida teceremos comentários e conclusões pertinentes
ao assunto proposto.
Comecemos pela pergunta 224 do LE, quando Kardec indaga aos Espíritos
Superiores, o que é a alma nos intervalos das encarnações. A reposta
dada é a seguinte: - Espírito errante, que aspira a um novo destino e o
espera.
Portanto, André Luiz, estava na condição de Espírito errante, aguardando uma nova encarnação segundo a resposta dos Espíritos.
Em seguida, vejamos a pergunta 227 formulada pelo Codificador: - De que
maneira se instruem os Espíritos errantes; pois certamente não o fazem
da mesma maneira que nós? Resposta: - Estudam o seu passado e procuram o
meio de se elevarem. “Veem, observam o que se passa nos lugares que
percorrem; escutam os discursos dos homens esclarecidos e os conselhos
dos Espíritos mais elevados que eles, e isso lhes proporciona ideias que
não possuíam”. (grifei e coloquei negrito)
Observa-se, portanto que a proposta para o Espírito na erraticidade não
é o trabalho braçal de lavar chão, limpar enfermarias, etc., mas de
trabalhar sua mente e esclarecer o seu ‘eu‘, objetivando uma melhor
preparação intelectual e moral, para enfrentar os embates de sua próxima
encarnação.
Analisemos ainda o que propõe a pergunta 230 de o LE: - O Espírito
progride no estado errante? Resposta: Pode melhorar-se bastante, sempre
de acordo com a sua vontade e o seu desejo; mas é na existência corpórea
que ele põe em prática as novas ideias adquiridas.
Diante do exposto, é fato que:
1º) A
vida espiritual não é igual à vida material, posto que a condição
consciencial e emocional do indivíduo é outra, o meio é outro, a
realidade é outra, a dimensão tempo/espaço é outra, as percepções e
sensações são outras.
2º) A Instrução dos Espíritos errantes não se faz da mesma maneira que a dos encarnados;
3º)
O progresso efetivo do Espírito só se dá através da existência
corpórea, que é quando ele põe em prática as novas ideias adquiridas no
Espaço.
No entanto, no que se depreende de Nosso Lar, os Espíritos errantes
vivem na espiritualidade uma vida semelhante à vida dos encarnados,
posto que:
a) os Espíritos moram em casas com suas famílias; b) trabalham e são remunerados (bônus-hora); c) têm relacionamentos amorosos, noivado e casamento; d) comem, bebem, tomam banho e dormem; e) viajam de aerobus, vão a festas, cinemas, concertos e reuniões; f) obedecem a um regime político sob as ordens de um Governador que administra a cidade através de seus Ministérios.
Ou seja, têm uma verdadeira vida social, com todas as implicações
geradas pelas relações humanas que envolvem família, amigos, inimigos,
trabalho e política.
Pergunta-se: - Pra que reencarnar, se o Espírito já vive todas as
possibilidades oriundas da vida em sociedade, considerada por Kardec,
como a “pedra de toque” para a evolução humana?!
Mas prossigamos nosso estudo agora analisando a questão 234 de O Livro
dos Espíritos, que trata dos Mundos Transitórios, e Kardec faz o
seguinte questionamento aos Espíritos Superiores: - Existem como foi
dito, mundos que servem de estações ou de lugares de repouso aos
Espíritos errantes? Resposta: - Sim, há mundos particularmente
destinados aos seres errantes, mundos que eles podem habitar
temporariamente, espécie de acampamentos, de lugares em que possam
repousar de erraticidades muito longas, que são sempre um pouco penosas.
São posições intermediárias entre os outros mundos, graduados de acordo
com a natureza dos Espíritos que podem atingi-los, e que gozam de maior
ou menor bem-estar.
E a pergunta 236 - Os mundos transitórios são, por sua natureza
especial, perpetuamente destinados aos Espíritos errantes? Resposta: -
Não, sua superfície é apenas temporária.
Oportuno ressaltar o desdobramento da pergunta 236, na 236-a: - São
eles ao mesmo tempo habitados por seres corpóreos? Resposta: - Não, sua
superfície é estéril. Os que o habitam não precisam de nada.
Diante de tão importantes informações, infere-se que:
1º) há possibilidade dos Espíritos errantes se acomodarem em “Mundos Transitórios”;
2º) tais mundos são de superfícies estéreis, ou seja, sem prédios, bosques, fontes etc.;
3º) o Espírito não precisa de nada disso na erraticidade.
Passemos agora à análise do item III, de o LE, que trata das
Percepções, Sensações e Sofrimentos dos Espíritos. Kardec lança o
seguinte questionamento na pergunta 253: - Os Espíritos experimentam as
nossas necessidades e os nossos sofrimentos físicos? Resposta: - Eles o
conhecem, porque os sofreram, mas não os experimentam como vós, porque
são Espíritos.
Pergunta 254: Os Espíritos sentem fadiga e necessidade de repouso?
Resposta: Não podem sentir a fadiga como a entendeis e, portanto não
necessitam do repouso corporal, pois não possuem órgãos em que as forças
tenham de ser restauradas. Mas o Espírito repousa, no sentido de não
permanecer numa atividade constante. Ele não age de maneira material,
porque a sua ação é toda intelectual e o seu repouso é todo moral. Há
momentos em que o seu pensamento diminui de atividade e não se dirige a
um objetivo determinado; este é um verdadeiro repouso, mas não se pode
compará-lo ao do corpo. A espécie de fadiga que os Espíritos podem
provar está na razão da sua inferioridade, pois quanto mais se elevam,
de menos repouso necessitam.
Pergunta 255: Quando um Espírito diz que sofre, de que natureza é o seu
sofrimento? Resposta: - Angústias morais, que o torturam mais
dolorosamente que os sofrimentos físicos.
Diante do exposto constatamos que:
1º) As necessidades físicas de que se queixam os Espíritos são apenas “impressões”;
2º)
Os Espíritos não precisam de repouso, nem obviamente de alimento, posto
que não possuem órgãos em que as forças tenham de ser restauradas, nem
muito menos aparelho digestivo, sistema circulatório, nervoso ou
genésico;
3º) O sofrimento do Espírito é totalmente moral, e não físico.
Para finalizar o presente estudo no que concerne à vida espiritual,
ninguém melhor que Kardec, que com muita propriedade assim se expressa:
“Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto dos Espíritos
encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os
seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório,
estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual
ostenta-se por toda parte, em redor de nós como no Espaço, sem limite
algum designado. Em razão mesmo da natureza fluídica do seu envoltório,
os seres que o compõem, em lugar de se locomoverem penosamente sobre o
solo, transpõem as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte do
corpo é a ruptura dos laços que o retinham cativos”.(Revista Espírita.
Março de 1865, p. 99) (grifei)
Adiante acrescenta o Codificador: “A felicidade está na razão direta do
progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser
tão feliz quanto o outro, unicamente por não possuir o mesmo
adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada
qual, em lugar distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas,
enquanto que tudo resplandece para o outro, tal como um cego e um
vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe
a mínima impressão. Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas
qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à
superfície da Terra, no meio dos encarnados, seja no Espaço”.(Revista
Espírita. Março de 1865, p. 100) (grifei)
Diante das palavras esclarecedoras de Allan Kardec, podemos asseverar
da inexistência de lugares determinados no plano espiritual, destinados à
purgação de penas, como o ‘umbral‘, ou lugares semelhantes às cidades
materiais terrenas, com belezas naturais e construções, para abrigar
Espíritos errantes aos moldes de Nosso Lar.
Como muito bem preceitua Kardec, a dor ou a felicidade é vivenciada
pelos Espíritos, seja na superfície da Terra no meio dos encarnados,
seja no Espaço. Como também dois Espíritos, um feliz e outro infeliz não
precisam estar em regiões diferentes para vivenciarem suas realidades
espirituais distintas, podendo estar lado a lado.
Vale ressaltar, que o assunto não se exaure nesta simples abordagem,
mas que nos desperte a rever certos conceitos através de um estudo sério
e efetivo das Obras Básicas, para que nos emancipemos da ignorância que
nos aflige, e nos faz escravos das informações mais absurdas, que
tomamos como verdade pelo simples fato de virem do plano espiritual
através de um determinado Espírito, às vezes utilizando-se de nome
respeitável, ou pela consideração devida ao médium através do qual se
deu a comunicação.
Seria interessante diante das considerações propostas uma releitura da
Escala Espírita - questão 100 de O Livro dos Espíritos, como também um
estudo mais aprofundado dos processos de obsessão, mistificação e
fascinação, brilhantemente tratados pelos Espíritos Superiores em O
Livro dos Médiuns.
Finalizando, precisamos introjetar que na condição de Espíritos
errantes estaremos trabalhando questões intrínsecas à nossa
individualidade, no que concerne ao nosso intelecto e à nossa
moralidade, posto que, como nos disseram muito significativamente os
Espíritos Superiores, o repouso do Espírito é totalmente mental.
Tomemos consciência, que o retorno à verdadeira vida nos levará a
conhecer a obra inenarrável do nosso Criador. Nossa casa somos nós
mesmos, livres, viajando pela força do pensamento através de todo esse
imenso cosmos, conhecendo mundos, assistindo a formação de galáxias, e
admirando a perfeição dessa obra, que nem o maior de todos os artistas
da Terra poderá reproduzir!
Por: Maria das Graças Cabral
fonte: http://kardeconline.com.br/profiles/blogs/umbral-e-nosso-lar-uma-realidade-n-o-existente-em-face-de#axzz2s7dGY9X9
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