O único e verdadeiro caminho através do qual Deus pode ser percebido em
Sua Palavra, Essência e Vontade, é quando o homem alcança um estado
de unidade consigo mesmo, e quando – não só em sua imaginação, mas em
sua vontade, possa deixar tudo o que é eu pessoal, ou o que pertence ao
eu: dinheiro e bens, pai e mãe, irmão e irmã, esposa e filhos, corpo e
vida, quando o seu próprio eu se transforma num nada. Ele deve entregar
tudo e se tornar mais pobre que um pássaro no ar, que possui um ninho. O
homem não deve ter um ninho para o seu coração neste mundo. Não que se
deva fugir de casa, abandonar esposa, filhos ou parentes, cometer
suicídio, ou jogar fora suas propriedades, a fim de não estar
corporalmente presente; deve-se matar e anular a vontade própria, aquela
que clama por todas essas coisas como sua possessão. O homem deve
entregar tudo isso ao seu Criador, e dizer com todo consentimento de seu
coração: ‘Senhor, tudo é seu’! Sou indigno de governar tudo isso, mas
como Tu me colocastes ali, devo cumprir meu dever entregando minha
vontade a Ti, de forma total e completa. Aja através de mim da forma que
quiseres, a fim de que a Sua vontade seja feita em todas as coisas e em
tudo que eu seja chamado a fazer para o benefício de meus irmãos, a
quem sirvo segundo o teu
mandamento. Aquele que penetra neste estado de resignação suprema entra
em união divina com Cristo, a fim de ver ao Próprio Deus. Ele fala com
Deus e Deus fala com ele, ele sabe qual é a Palavra, a "Essência, e a
Vontade de Deus". (Mysterium, XLI. 54-63).
"Siga meu conselho, deixe de buscar o conhecimento de Deus, através da sua vontade egoísta e de teu raciocínio; jogue fora tua razão imaginária,
aquela que teu eu mortal pensa que possui, então tua vontade será a
vontade de Deus. Se Ele encontrar a Sua vontade como sendo a sua vontade
na Dele, então a Sua vontade irá se manifestar em sua vontade, como se
fosse em Sua própria propriedade. Ele é Tudo, e o que quer que desejes
saber no Tudo está Nele. Não há nada oculto diante Dele, e tu verás em
Sua própria luz." (Forty Questions, I.36).
"Tudo o que se busca e
se investiga sobre os mistérios divinos num espírito de egoísmo é
inútil. A vontade própria não pode compreender nada de Deus, porque essa
vontade não está em Deus, mas é externa à Ele. A vontade num estado de
tranqüilidade divina, compreende o divino, porque é um instrumento do
Espírito, e é o espírito em que a vontade é tranqüila que tem a
faculdade de tal compreensão. Há muitas coisas, sem dúvida, que podem
ser investigadas, aprendidas e compreendidas num espírito de egoísmo,
mas a concepção assim formada pela mente não passa de uma aparência
externa, e não há compreensão do fundamento essencial." (Signature
15,33)
"A vontade deve buscar ou desejar nada mais do que a
misericórdia de Deus no Cristo; deve entrar continuamente no amor de
Deus, e não permitir que nada a afaste deste objetivo. Se a razão
externa triunfa e diz: ‘Eu tenho o verdadeiro conhecimento’ então a
vontade deve fazer a razão carnal curvar-se à terra, fazendo com que
entre num estado mais elevado de humildade, e com que repita sempre para
si mesma as palavras: ‘És tola. Tu nada possuis senão a misericórdia de
Deus’. Tente penetrar essa misericórdia e tornar-se um nada em si
mesmo, e afaste-se de todo o seu próprio conhecimento e desejo egoísta,
reconhecendo-os como algo inteiramente impotente. Então a vontade
própria natural, irá entrar num estado de abandono, e o Espírito Santo
de Deus irá tomar uma forma viva dentro de ti, inflamando a alma com
suas chamas de amor divino. Assim, o conhecimento elevado e a ciência do
Centro de todo ser irá surgir. O eu humano irá começar a perceber o
Espírito de Deus, tremulamente e na alegria da humildade, e será capaz
de ver o que está contido no tempo e na eternidade. Tudo está perto de
uma alma nesse estado, pois a alma não é mais propriedade sua, mas um
instrumento de Deus. Em tal estado de calmaria e humildade a alma deve
permanecer, como uma fonte permanece em sua própria origem, ela deve,
sem cessar, atrair e beber daquele poço, e nunca mais desejar deixar o
caminho de Deus". (Calmness, 1, 24).(J. Boehme)
Nenhum comentário:
Postar um comentário