Outro dia estava na internet e me deparei com um site que defendia a “pureza doutrinária” da doutrina kardecista.
O autor defendia com veemência à ortodoxia da doutrina e argumentava que apenas deveriam ser adotados os preceitos codificados por Kardec e que tudo que viesse depois deveria ser rejeitado.
Fiquei pensando sobre o texto e cheguei a algumas conclusões que gostaria de compartilhar.
A primeira pergunta que me veio á mente:
Quando foi que kardec se declarou ortodoxo?
Quando penso em Allan kardec, depois de tudo que li, a conclusão que chego é que Kardec era um homem aberto e receptivo ao novo( desde que fizesse sentido e estivesse de acordo com a razão).
Em várias ocasiões fez questão de frisar que nem tudo poderia ser dito naquele momento..
Além disso, em momento algum os espíritos disseram que APENAS Kardec seria detentor exclusivo de manifestações espirituais elevadas.
Ao contrário deixaram claro que a autoridade da doutrina reside justamente na universalidade do ensinamento, no fato das manifestações não estarem concentradas em apenas um ser mas no fato dos espíritos poderem ser comunicar a qualquer tempo, a qualquer pessoa.
Nesse sentido é que Emannuel, André Luiz, Bezerra da Silva, Joana de Angelis, Humberto de Campos e tantos outros autores do mundo espiritual vem nos trazer mais detalhes acerca da existência espiritual enriquecendo as informações apresentadas pelos espíritos à Allan Kardec.
Muitos dos que lêem as obras de André Luiz por exemplo , em um primeiro momento, tendem a rejeitar aquele quadro tão “humano” apresentado pelo irmão na espiritualidade: aero bus, casas, animais de estimação..tudo parece um pouco surreal demais para uma realidade espiritual.
Porém depois de um estudo profundo percebemos que André Luiz não contradiz Kardec mas apenas detalha algo que ainda não tínhamos condição de compreender naquela época.
Refutar as obras espíritas que vieram depois de Kardec é se privar de uma enorme fonte de aprendizado, pior ,reflete teimosia e intransigência o que não coaduna com a lei do progresso codificada nas obras de Kardec.
Tudo no universo é expansão, evolução, transformação e permanecer apegado a conceitos é atribuir imutabilidade à uma realidade que está em constante transformação e a imutabilidade é um atributo que só pode ser aplicado quanto à DEUS.
Esta postura denota inda falta de habilidade para se adaptar a um a nova realidade. Não mudar apenas para não ter o trabalho de alterar antigas convicções é ir de encontro ás leis universais e demonstra o quanto ainda estamos apegados ao nosso ego.
É difícil muitas vezes mudar.
Levamos tempo para construir conceitos, sistemas sobre sistemas e nos alicerçamos nesse conteúdo que incorporamos ao nosso acervo mental.
Mexer nessa base psicológica incomoda, nos desestabiliza , precisamos de tempo para digerir novos conceitos que alteram ou completam nossas concepções.
Levemos então o tempo que for necessário, mas não permitamos que a nossa rigidez mental nos impeça de seguir a divina marcha da evolução.
O engessamento mental freqüentemente dá margem a pensamentos preconceituosos, sectaristas o que é uma porta aberta para o orgulho se manifestar.
Acreditar que somente Kardec era detentor de toda a verdade absoluta é o mesmo que dizer, por exemplo, que Chico Xavier era ou um mentiroso ou um obsediado.
Este pensamento pode parecer natural vindo de algum irmão que não conhece profundamente a doutrina, mas o mais intrigante é que tal posicionamento encontra guarida entre aqueles que conhecem, trabalham e lidam constantemente com o espiritismo.
O próprio “Evangelho Segundo o Espiritismo” assevera que "Fora da caridade não há salvação” apesar de alguns entenderem que a máxima deveria ser “Fora de Kardec não há salvação”.
Outra relação que me veio a mente ao ler o artigo foi a comparação entre o comportamento de alguns espíritas ortodoxos e os judeus e protestantes em geral.
Aqueles que não reconheceram Jesus como mestre entendiam que o messias contradizia os ensinamentos mosaicos; que toda lei estava em Moises e que tudo que estivesse um pouco diferente desta lei deveria ser combatido.
Ora, Jesus disse que não veio destruir a lei, mas é inegável que seus ensinamentos tocavam em dogmas basilares da moral mosaica. Jesus trouxe renovação, ampliação, aprofundamento de conceitos.
Todo conceito novo exige de certa a forma a “morte” das idéias que o antecederam. Não é a destruição completa de um sistema ,mas sim sua adequação à uma nova realidade.
De fato, na prática Jesus apresentou um novo Deus e trouxe uma nova moral aos judeus.
O Deus terrível e vingativo foi substituído por um Deus bondoso e misericordioso. O “ Olho por olho dente por dente” foi revogado por “Amai-vo uns aos outros”..
Só que parte dos judeus da época permaneceram cegos e surdos aos divinos ensinamentos de Jesus, estagnados quanto à lei da evolução,que lhes apresentava na figura do Cristo uma moral mais avançada.
Preferiram, portanto permanecer presos á forma, agarrados aos seus antigos dogmas simplesmente porque já estavam acostumados e familiarizados com as normas que lhes regiam.
Já tinham construído a sua idéia de Deus, das relações humanas e não estavam dispostos a mudar isso, a “desconstruirem-se” para edificar uma nova base.
Estes irmãos ainda não tinham conseguido se despir dos resquícios da vingança, do orgulho, do ressentimento quanto ao próximo e por isso ainda precisam de um Deus terrível com que se identificassem e que carregasse às mesmas mazelas de seus filhos.
Por uma dificuldade em conseguir viver e sentir o amor, o perdão, a renúncia do Cristo preferiram um Deus que mais se parecia com eles.
O comodismo e a rigidez mental impediu que os judeus da época entendessem os ensinamentos morais do messias nazareno.
Voltando agora a nós..
Será que quando taxamos outros espíritos contemporâneos de pseudo sábios e mistificadores apenas por não repetir “ letra por letra” os mesmos ensinamentos de Kardec também não estamos agindo como os judeus ortodoxos que renegaram o Cristo resistentes á marcha da evolução, hostilizando o novo?
Se só podemos aceitar espíritos que repitam o que Kardec já codificou onde estaria a evolução? A lei do progresso?
Se nós ainda nos encontramos em um estágio muito primitivo na escala evolutiva como admitir que as verdades que nos foram apresentadas não sejam reformuladas futuramente?
Será que estes espíritos ,que alguns ortodoxos hostilizam, não estão vindo justamente cumprir a tarefa anunciada pelo codificador da doutrina de trazer à humanidade esclarecimentos que naquela época os homens ainda não tinham condições de assimiliar?
Por mais que os princípios e postulados apresentados por Kardec sejam muito nobres, lógicos e evoluídos devemos ter consciência de que ainda são uma alegoria pois que ainda somos crianças em termos de idade espiritual e não poderíamos ter a pretensão de no estágio em que nos encontramos descortinar todas os “mistérios” da vida.
Acredito na base codificada por kardec que é inclusive uma fonte riquíssima de estudos mas, me reservando o direito de discordar do artigo que deu origem a este tópico,penso que o codificador da doutrina não imaginava que os homens, futuramente, iriam engessar uma doutrina que nasceu livre, deixando que a teimosia humana se sobrepusesse a beleza e universalidade dos ensinamentos espíritos, aprisionando o Espiritismo na gaiola do exclusivismo humano.
Diante disso, em respeito a kardec, espírito livre que nunca se declarou ortodoxo, sectarista e restrito façamos um esforço para libertar o Espirtismo das amarras que o colocamos e deixá-lo livre para voar, para seguir seu curso, sob o comando da divina lei da evolução!
Susana Fernandes
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