segunda-feira, 13 de junho de 2011

MAMÃE, AQUI, TEMOS

    JARDINS E ESCOLAS, PARQUES E FLORES


Minha querida Mãezinha, querido Papai.
Abençoem-me!
Fiz muitos exercícios para escrever esta carta, mas não sei como agir direito.
Mãezinha e Papai, vocês choraram tanto e me chamaram com tanto amor que, desde minhas melhoras, quero responder. Venho pedir à Mamãe que creia em mim. Ela me fala, quase todas as noites:
- Meu filho, se existe outra vida, venha ver sua mãe! Venha ver a falta que você faz. Fale, meu filhinho, comigo, o que existe e fale depressa para que eu e seu pai consigamos viver.
Isso, Mãezinha, eu ouço de seu querido coração, em nossa casa da Rua 128, quando há silêncio bastante para receber a presença de nossas lembranças. Estou sempre que posso, desde que comecei a melhorar, lá no número 20, recordando com as suas recordações...
Papai, por que o senhor há de pensar que poderia ter evitado tudo o que aconteceu? Tenha fé em Deus, meu pai querido, e não se culpe por desejar colocar mais conforto em nossa casa feliz. Aquela luz que se apagou e a luz que acendi na vela chegavam de longe.
Aqui, temos muitas aulas. Não sei explicar como os professores daqui explicam, mas fiquei sabendo que todo sofrimento que não provocamos é resultado de sofrimento que já causamos em outros tempos. Não tenho meios de esclarecer isso, mas os amigos nossos aqui são muitos e todos me auxiliam, esclarecendo.
Mamãe, quando as queimaduras ficaram profundas, eu não lembrava com segurança o que havia acontecido. Lembro-me que Papai estava assustado, querendo colocar a gente fora de perigo, mas isso para seu filho não seria possível. Mas no hospital, eu queria ver o Papai me tratando, sem saber que ele também estava lutando com os braços feridos. Não sei contar como foi aquela aflição toda de ver que todos perto de mim mostravam rosto triste, até que, num certo momento, que não sei precisar, senti-me aliviado, quase tranqüilo. As feridas das queimaduras ainda doíam, mas eu estava diferente. Eu estava num colo de mãe, tão acolhedor, e me via embalado muito suavemente e com tanto carinho, que eu pensei ter obtido alta e estava em nossa casa, em seu colo.
Chamei por você, Mamãe, com aquela confiança de todo dia, mas o semblante de alguém que não era a senhora, se abeirou de meu rosto e uns lábios de bondade parecendo com os seus me beijaram. “Não tenha medo, meu filho, sou a Vovó Alexandrina em lugar de sua mãe.” Escutei essas palavras sem o menor receio e sem qualquer idéia de morte, e havia lutado tanto com o corpo antigo que me entreguei, de novo, ao descanso.
Acordei numa escola-hospital com os seus e com os chamados de Papai. A senhora sabe quanto devo ter chorado também, mas aquela abençoada protetora que me ensinou a chamá-la por Vovó Alexandrina me sossegava o coração. Era preciso ser bem comportado, e fiz muita força.
Médicos me assistiram. Eram outra vez os médicos sem meu Pai. Um deles, que se dá a conhecer por Doutor Paulo Rosa, me entregou aos cuidados de um amigo de Papai e do meu avô José, o nosso amigo José Fernandes Valente, que me serviu de enfermeiro com outras pessoas boas. São tantas que não sei. Mas posso dizer à senhora e a meu Pai que o irmão Tarcísio Siqueira e o Padre ou Monsenhor Pitaluga me prestam muitos serviços.
Monsenhor Pitaluga me falou das preces da Vovó Augusta e do Vovô Zico e dos meus avós e parentes todos que pediam a Deus por nós. Estou mais forte. Não tenho mais a pele ferida e os meus cabelos estão como no retrato melhor.
A senhora, Mãezinha, e você, Papai, não se esqueçam de que temos muito a trabalhar pela Jeanine e pelo nosso Wagner.
Os amigos que fiz aqui, dentre eles, o Izídio do Seu Cacildo e o Henrique de Dona Augustinha, estão me auxiliando a escrever.
Mamãe, aqui, temos jardins e escolas, parques e flores, muitos diálogos com professores de música, mas sentimos muita falta de nossos pais que ficam no mundo. Tenho companheiros bons, com quem encontro muitas distrações, mas o esquecimento daqueles que amamos não existe. A saudade é uma espécie de ímã no coração. Tenho dias em que meu espírito parece uma peça atraída para a nossa casa, e então sou levado até lá para aliviar-me. Conto isso, mas não é para chorarem. Tudo já passou. Agora, eles, os professores, me deixam escrever em confiança.
Não devo escrever nada que aumente o sofrimento em meus pais e irmãos queridos.
Mamãe, sabe o que tenho pedido a Deus? Tenho pedido para que a fé venha morar em seu coração, como sendo uma estrela no céu, porque o seu carinho é o céu para nós. Não deixe nossa casa triste. Faça nossas músicas, Mamãe. Elas serão preces pela felicidade de seu filho. Seu sorriso e o sorriso de Papai são luzes para mim.
Sempre que eu puder, escreverei. Quero dizer à senhora e Papai que o Tio Antonio e Tio Godofredo são dois amigos muito legais para mim.
Agora é o momento de parar, mas carta com saudade parece corpo com o coração batendo incessantemente. O coração não pára nem quando se dorme no mundo e a saudade para mim é isto que estou falando: um relógio por dentro que marca tempo constante de nossa ligação e de nosso amor.
Papai, receba um beijo na testa com a alegria de havermos vencido a prova da cola incendiada e você, Mamãe, guarde como sempre, todo o coração de seu filho e seu companheiro de sempre,
Maurício

Livro "Enxugando Lágrimas" - Psicografia Chico Xavier - - Autores Diversos

fonte:    Carlos Eduardo Cennerelli     cennerelli@terra.com.br

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