Em Ato dos Apóstolos 2:4, temos: “E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falasse”. A inspiração divina é fonte de todas as tarefas, na casa espírita. Ora-se, entrevista-se, reflete-se, tudo sob a égide da inspiração divina nas atividades. O uso da palavra, sob a inspiração dos bons anjos, não é fato novo; a conhecida passagem de Petencostes, citada acima, é um bom exemplo das possibilidades da comunicação, investida da devida orientação espiritual. O palestrante espírita que o diga, pois o auxílio dos céus inicia-se, ainda na preparação da palestra, inspirando-o na “estratégia” e abordagem do tema e vai até as palavras finais. Aliás, antes de adentrar ao tema “Palestrante Espírita” – instrumento de diálogo com as massas, encarnadas e desencarnadas –, seria interessante analisarmos, brevemente, a questão da palavra.
Tiago nos informa sobre o poder de destruição que a palavra possui, em 3:6: “A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno”. E arremata, em 3:8 e 9: “Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição”. Se soubéssemos o valor e a força da palavra em nossas vidas, certamente teríamos uma atitude mental diferente. Se fôssemos capazes de vislumbrar os efeitos destrutivos e construtivos, o poder de transformação de sentimentos e renovação de forças que a palavra é capaz de alavancar; se víssemos, no plano espiritual, o efeito da palavra em cada um de nós, certamente valorizaríamos, ainda mais, essa faculdade. A palavra é força viva a irradiar beleza, trazer energia, renovar a fé, ou, a destruir sonhos, diminuir o caráter, servir de púlpito à vaidade e ao orgulho. O palestrante espírita, consciente e ativo, sabe do valor de seu instrumento, da responsabilidade que carrega e das consequências do que gera.
Listemos algumas características importantes as quais deve buscar o palestrante espírita:
Simplicidade na comunicação: O objetivo básico de toda palestra é levar a mensagem do Cristo, sem distorções e em sua pureza, ao público, uma vez que interpretações mirabolantes e por demais “criativas”, na maioria das vezes, trazem confusão e descrença. “Redescobrir a roda”, nas passagens evangélicas, deve se revestir de bastante cuidado, certeza e segurança, pois, na grande maioria das vezes, o “feijão com arroz” já é suficiente para consolar corações, fortalecer espíritos e modificar atitudes. Lembremos que as pregações do Cristo também se revestiam de simplicidade, inclusive nas palavras proferidas. Rebuscamento exacerbado, busca da retórica perfeita e gestos exagerados podem chamar mais a atenção do público do que a própria mensagem. Além de comprometer a palestra, poderá evidenciar uma característica viva em todos nós: a vaidade. Importante nos perguntarmos qual o verdadeiro motivo de estarmos frente ao público; interrogarmo-nos a nós mesmos é tarefa corajosa, se já aprendemos a não nos enganar. Se, dentre os reais motivos de estarmos nos propondo as palestras públicas, estiver o propósito de expandirmos a nossa autoadmiração ou qualquer outra “qualidade farisaica”, não devemos parar e, sim, refletir, remoldar os valores, “ajustar as velas”. A habilidade da comunicação ainda existirá, a inspiração do alto ainda se fará presente, e necessário será apenas mudar, em nós, a causa, sem nunca cogitar a desistência da tarefa, mas tão-somente uma “parada estratégica”, como momento de reflexão justo e necessário a todos, pois a continuidade do trabalho, por pura alimentação da vaidade, é desequilíbrio grave e nos trará prejuízos; interroguemo-nos, portanto, acerca do assunto. Para finalizar a questão da simplicidade, lembremos o nosso irmão Paulo, em sua famosa oração: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”. Falar a língua dos homens e dos anjos, sem amor, é cair em simplismos e falta de profundidade, na mensagem, uma vez que o sentimento é o combustível de todas as tarefas na seara.
Conhecimento Doutrinário: Caso alguém já tenha tido a experiência de participar de uma aula cujo professor se proponha falar sobre tema que não domine, sabe exatamente a importância do conhecimento doutrinário, para o palestrante. Quando nos deparamos com um público, vemos apenas pessoas dispostas a ouvir a palavra do Cristo; 99% nem sabem ou nunca ouviram falar do palestrante. Nós, palestrantes espíritas, temos de ter a consciência de que os participantes lá estão para ouvir a mensagem do Mestre, pois, muitas vezes, até mesmo o tema desconhecem. Sem considerar que eles sabem tanto de nós quanto nós sabemos deles, e é de extrema importância para a credibilidade da nossa preleção e, consequentemente, para a credibilidade da nossa casa espírita que, durante a nossa oratória, não saiam “abobrinhas”, não apenas acerca da nossa Doutrina, mas sobre a bíblia ou qualquer outro tema, uma vez que as pessoas a serem atendidas podem estar sofrendo de problemas de todos os matizes, porém não significa que dentro delas não exista a informação acerca dos temas abordados. Além disso, o conhecimento doutrinário nos leva, diretamente, a outra obrigação do palestrante: levar a mensagem espírita na sua pureza. Distorcer os ensinamentos dos espíritos superiores é plantar “ervas daninhas”, nas mentes dos assistidos, bem como demonstra falta de amor para com a Doutrina que nos abraçou, aceitou e permitiu que, através dela, jogássemos um pouco de luz no nosso passado delituoso. Não permitamos que tal luz se apague, durante a tarefa, em consequência do descaso para com a pureza doutrinária. Se tivermos a oportunidade, é sempre interessante debater com outro companheiro de jornada qualquer assunto controverso, analisando se o mesmo convém ou não ser abordado e se está de acordo com a nossa Doutrina. Na dúvida, é melhor omitirmos a abordagem da ideia, pois nosso trabalho não se perderá como consequência isso. Aprofundar-se, sempre, nos conceitos espíritas, mais a incessante vontade de conhecer a Doutrina, bem como conhecer-se a si mesmo, aí estão duas características do palestrante espírita. A chama do conhecimento jamais deverá se apagar perante aqueles que se propõem colocar, através da palavra, o conhecimento acima do candeeiro.
Amor à tarefa: Tal característica é comum a todas as outras, na casa. Não é fácil a tarefa do palestrante espírita. Encarar uma plateia, com os respectivos anseios, e propor-se ao auxílio em massa, utilizando-se da palavra não é nada fácil, porém é belo. Muitos de nós ainda sentimos e sentiremos o tal “friozinho na barriga”, pois até mesmo o próprio Divaldo Franco, ícone e modelo para todos nós, reconhece-se, por determinadas situações, necessitado de amparo, e o que não dizer de nós? Ainda por muito tempo, teremos a insegurança diante do público, cometeremos deslizes, trocaremos palavras, etc. Tais situações ainda farão parte da nossa tarefa. Muitos, ainda, pela tal insegurança, não se sentirão aptos sequer a iniciar a tarefa, o que é perfeitamente natural. Porém, lembremos das palavras do nosso Chico, quando dizia que, se fosse aguardar sentir-se seguro e preparado para o exercício da mediunidade, não teria sequer começado. Precisamos nos permitir errar, e sermos caridosos para conosco mesmos. O erro, em virtude das nossas limitações, é completamente plausível, e devemos, sim, procurar evitar os erros, como consequência do despreparo, uma vez que são incompatíveis com a nossa tarefa e denotam falta de amor à mesma.
O palestrante é o trabalhador que não vê, em grande parte, o resultado final do próprio trabalho. O médium percebe o espírito sendo atendido; o expositor tem a certeza de uma boa aula, porém o palestrante não sabe o quanto da reflexão que proporcionou ao público acabará por “germinar”. É um trabalho de efeito silencioso. O palestrante deve sempre focar no ser humano; fazer com que aqueles que o ouçam retomem esperanças, fortaleçam a alma e sintam-se em paz. Deve fomentar a reflexão, sem acusar consciências. Mostrar o caminho, sem condenar atitudes, e evidenciar a eterna possibilidade de renovação. O palestrante espírita pode ser o ponto de recomeço de uma vida. Iniciemos recomeços, “apascentemos ovelhas”, eis a missão que o Cristo nos relegou.
Pedro Valiati
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