Fonte: http://www.redencao.org.br/
Jayme Lobato (texto: A Confusão persiste)
Pedro, espírita atuante, e Manuel trabalham na mesma empresa. A firma admitiu Helena e Manuel quer apresentá-la a Pedro.
- Pedro, venha cá!
- O que está havendo, Manuel?
- Quero te apresentar a nova funcionária da firma, a Helena! Vamos até a sala dela!
- Deixe para a hora do almoço, companheiro. Estou com muito serviço, para entrega ainda na parte da manhã.
- Você é mesmo caxias, cara!
- Ora, Manuel, a empresa me paga para trabalhar! É meu dever corresponder ao que a firma espera de mim.
- Podemos almoçar juntos, então?
- Tudo bem! Almoçaremos juntos. Na hora do almoço, se encontram os três.
- Pedro, esta é a Helena de que te falei!
- Mas, o que você falou de mim, Manuel?
- Somente falei que você é a nova funcionária da firma. E, também, que queria apresentá-la ao Pedro.
- Muito prazer, Helena!
- O prazer é meu, Pedro!
- Fique tranqüila! O Manuel não fez nenhum comentário a seu respeito. Somente me disse que queria me apresentar à nova funcionária da firma.
Os três almoçaram e, logo após, faltando ainda trinta minutos para retornarem ao trabalho, permanecem na área de recreação da empresa, em animada conversa.
- Helena, o Pedro é kardecista!
- Ora, Manuel! Já te disse várias vezes que não sou kardecista. Sou espírita!
- Esse assunto é muito controvertido, meu amigo!
- Me desculpe, Pedro, mas eu também acho esse assunto polêmico.
- Se eu dissesse que você é espírita, meu caro, a Helena poderia pensar que você é macumbeiro. E isso eu sei que você não é!
- Entendo a sua preocupação, Manuel. Mas, a verdade é que sou espírita, porque sou adepto do Espiritismo ou Doutrina Espírita.
- Muitas vezes, ouço falar em centro de mesa e de terreiro. De qual dessas formas de Espiritismo você participa, Pedro?
E Pedro aproveita a pergunta da Helena para esclarecer melhor o assunto.
- Penso que essas expressões foram criadas pelo povo para diferenciar um centro espírita que, habitualmente, desenvolve seus trabalhos em torno de uma mesa, dos centros envolvidos com os cultos afro-brasileiros, em que suas práticas ocorrem num terreiro!
- E como são chamados esses cultos?
- Bem, Helena! No Brasil, temos a Umbanda e, também, o Candomblé.
E Manuel observa:
- Mas, Pedro, não é essa a informação que os meios de comunicação passam, por isso precisamos de um diferencial!
- O Manuel tem razão, Pedro! Sempre pensei que espírita fosse todo aquele que recebe ou se envolve com espíritos.
- A maioria das pessoas pensa assim, meu caro!
- Meus amigos, quem recebe espíritos, como vocês dizem, é médium, que pode não ser espírita! - Seria o que, então? - pergunta Helena.
- Segundo o culto religioso a que se filiar, ele será umbandista, candomblecista, espiritualista!
Manuel exclama:
- O espírita também recebe espíritos!
- Nem todo espírita recebe espíritos, Manuel!
- Como assim, Pedro?
- quer saber Helena.
- Vou responder simplificando o assunto: porque nem todo espírita é médium. Somente os médiuns recebem espíritos!
E Pedro continua esclarecendo:
- As palavras Espiritismo, espírita e espiritista foram criadas por Allan Kardec para designar a doutrina e seus adeptos, doutrina essa que surgiu com a divulgação de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, na França.
Manuel se mostra curioso.
- Onde está dito isso, Pedro?
- Em O Livro dos Espíritos, na parte introdutória, Kardec fala sobre o assunto e esclarece porque estava criando esses novos vocábulos.
- Helena, o assunto é longo, mas vou tentar abreviá-lo.
E Pedro tenta sintetizar:
- Estaria correto se a doutrina fosse de Kardec!
- E não é?! - surpresa, pergunta Helena.
- Não, Helena. A Doutrina Espírita é resultado do ensinamento dos Espíritos Superiores e não de Kardec.
- E o que fez o Kardec, já que o seu nome é por demais conhecido no Espiritismo?
- Diz-se que ele é o codificador do Espiritismo. Ou melhor, ele teve o trabalho de conduzir um processo de pesquisa através da qual obteve e organizou o ensinamento desses Espíritos Elevados e que se constitui na Doutrina Espírita ou Espiritismo!
- Isso está registrado em algum livro, Pedro?
- Kardec explica muito bem esse assunto, Manuel, no livro O Que é o Espiritismo.
Helena , se mostrando realmente interessada no tema, quer saber mais.
- E como você conceitua o espírita?
- É aquele que pratica o Espiritismo ou Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec
Manuel também se interessa em saber mais:
- Mas, Pedro, há algumas coisas comuns no Espiritismo e nos cultos afros, não há?
- Há sim! Por exemplo, a comunicação com os espíritos.
E Pedro se estende.
- Há também alguns conceitos comuns. Citarei somente um:
uma lei que o Espiritismo chama de Lei de Causa e Efeito e que a Umbanda denomina Lei do Retorno. Os nomes são diferentes, mas os conceitos se equivalem.
- Nesse assunto, a mídia confunde mais a gente!
- Mas, já está bem melhor, Manuel. Alguns órgãos da imprensa já fazem a distinção entre o Espiritismo e os cultos afro-brasileiros. E até o IBGE já faz essa distinção no censo.
- Então, pelo que você diz, o Espiritismo surgiu na França e os cultos aqui referidos têm suas raízes na África!
- Justamente, Helena! Quando O Livro dos Espíritos surgiu, em 1857, em Paris, os africanos, no Brasil, já exerciam os seus cultos, com suas práticas mediúnicas e seus ritos!
Helena ajuda no desenvolvimento do assunto.
- Dá para entender, pois a primeira vinda dos escravos para o Brasil aconteceu em 1549, com Tomé de Souza. Manuel também colabora.
- E o Espiritismo, como você está explicando, Pedro, surgiu somente 308 anos depois e na França!
- E o primeiro centro espírita organizado surgiu no Brasil somente em 1865, e se chamava Grupo Familiar de Espiritismo, fundado por Olympio Teles de Menezes.
Helena, satisfeita, declara:
- Estamos tendo uma verdadeira aula de Espiritismo!
- Que nada! Há ainda muita coisa a se falar sobre o assunto!
Ela ainda pergunta:
- E o que você diz dos cultos afro-brasileiros?
- Não posso dizer muito, pois não os conheço o bastante. Porém, pelo que sei, são de grande importncia na formação cultural, social e religiosa do nosso povo.
- Além das origens diferentes, como você já explicou, Pedro, que outras diferenças há entre o Espiritismo e os cultos afro-brasileiros?
- A prática espírita, Helena, não tem ritual, não tem culto exterior, não tem cerimônia religiosa, não tem sacerdócio organizado, nem hierarquia sacerdotal. Também, no Espiritismo não vemos altares, nem imagens, nem velas, nem bebidas alcoólicas!
Manuel ainda tem uma dúvida:
- Vocês não têm roupas especiais para o trabalho, Pedro?
- Ia-me esquecendo disso, Manuel: o trabalho espírita não adota roupas especiais!
E Manuel reclama:
- Eu te apresentei a Helena e o tal de Espiritismo não me permitiu conversar mais com ela!
- Você foi quem promoveu esse encontro e foi você quem puxou o assunto, Manuel, apresentando-me a Helena, por engano, como kardecista.
Helena assevera:
- Pra mim foi muito bom o papo!
- Pra mim também! Tentei esclarecer vocês sobre alguns equívo-cos que são cometidos quando se trata de Espiritismo.
E Helena, curiosa, declara:
- Gostaria de conhecer um centro espírita!
- Pois já está convidada a ir à casa espírita em que trabalho!
- Pronto, fiquei de fora!
- Você também pode ir, Manuel!
- Vamos conhecer um centro espírita, Manuel!
- Se forem amanhã terão oportunidade de assistir a um excelente palestrante. Grande conhecedor da Doutrina!
- Combinado Pedro! Amanhã estaremos lá, não é mesmo, Manuel?!
- Embora dentro, sobrei nesta! E sobrou mesmo! Helena gostou do Espiritismo e começou a freqüentar o centro em que Pedro trabalhava. E, além disso, gostou também de Pedro e ele dela. Dois anos depois, estavam os dois se casando.
fonte:Carlos Eduardo Cennerelli
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