quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Crítica na Casa Espírita

A arte de receber e dar a crítica sem causar melindres .
Pedro Valiati
Afirmar que a crítica gira em torno do mundo não é de todo errado. Em toda área profissional ou posição a crítica é ferramenta, nem sempre caridosa, de expressar opinião comum, sentimentos menores ou interesses, nem sempre expressando a intenção de auxíliar, edificar, melhorar a atividade ou comportamento do criticado. Poderíamos falar sobre a crítica em diversos aspectos, no entanto, dentro da casa espírita é o foco que nos interessa.
Muitos de nós, colaboradores espíritas, conhecemos ou enfrentamos conflitos e problemas dentro da casa espírita por conta de uma crítica mal direcionada ou mal aceita. O resultado é lastimável, desmotivação, melindre, polaridades internas, perda de colaboradores e enfraquecimento dos trabalhos.
Na verdade, saber criticar é uma arte. É preciso muito discernimento para não incluirmos na crítica preconceitos, esteriótipos (rótulos) ou nos contaminarmos com as opiniões ou comentários alheios, nem sempre verdadeiros. No meio dos grandes negócios, dizem que o bom negociador é aquele que consegue acordos sem que a outra parte perceba que estava negociando. Pois bem, seguindo a mesma idéia, o bom crítico é aquele que passa a mensagem, ou seja, a crítica sem dizer que o outro esta errado.
Por que é tão difícil criticar? Pelo fato de ser difícil ser criticado. É nesse momento que algumas qualidades são fundamentais para a boa aceitação da crítica, tanto para o crítico quanto para o criticado:
1 – Saber falar. O emprego das palavras certas: Muitas pessoas criam problemas para si próprias por não saber o momento, o meio e as companhias certas para iniciar um processo de crítica. A crítica positiva, o elogio, sempre que possível, deve ser realizado em grupo, para que o criticado tenha o justo reconhecimento pelo bom trabalho realizado e o restante do grupo saiba a forma correta de proceder. Atentando sempre para a banalização do elogio. A critica corretiva deve ser empregada individualmente, para não gerar constrangimentos. Existe muita diferença entre dizer e escutar um “Voce é muito nervoso!” e “Voce precisa ser mais paciente.”.
Saber falar é um dom! O que melindra não é o que se fala, mas como se fala. Sempre que possível, no ato de criticar, evitemos salientar os erros, e sim mostrar a solução.
Saber citar a situação, ter embasamento para a crítica é igualmente fundamental, caso a informação da crítica venha de um terceiro, é importantíssimo perguntar a outra versão, para não cairmos em injustiças. Infelizmente e por razões diversas da nossa condição espiritual, nem sempre a verdade é a quilha das nossas ações, mesmo falando de colaboradores da casa espírita, veículos de esperança, amor e consolação. Por isso, ter a mente livre de preconceitos e ouvir a outra versão é o primeiro passo para que a crítica não se transforme em injustiça e cause prejuízo aos trabalhadores e ao trabalho.

2 . Imparcialidade: Ouvir a outra parte sempre dando margem a contra argumentação, sem evitar o conflito de idéias, mas controlando-o, tendo por meta a caridade: Só saberemos a intenção do erro cometido pela outra parte se a deixarmos falar acerca do ocorrido, dar-lhe a aportunidade de expor a própria versão, inclusive nos prevenindo de cometer injustiças, desta forma crítica será mais completa e eficaz. Não tenhamos medo de nos colocarmos num conflito de idéias, eles sempre ocorrerão, os valores que regem as pessoas são tão diferentes quanto a cadeia de DNA individual, devemos, sim, controlar tal conflito, de forma que o mesmo não descambe para discussão desnecessária e infeliz, transformando trabalhadores da causa espírita que compartilham do mesmo objetivo em adversários.

3 – Objetividade: Todo ser humano tem um limite de tempo de atenção. É como, por exemplo, ver um filme pouco interessante, no início, damos toda atenção ao mesmo, no entanto, com o tempo passamos a dispersar a atenção para algo mais atraente, ou se estamos num cinema, “rezamos” para que o mesmo acabe o mais depressa possível, e comemoramos quando o mesmo acaba. Devemos evitar ao máximo tal situação no momento de uma crítica. Objetividade é uma das palavras chaves na arte da crítica. Ser objetivo se tranforma em crédito para o crítico, diminui a ansiedade do criticado e ainda abrevia o momento da crítica corretiva, que naturalmente, não é agradável para nenhum lado.

4 – Saber ouvir: É natural que durante a exposição de uma crítica corretiva também escutemos críticas ao nosso trabalho ou sobre atitudes. Bastante comum e justo que a outra parte queira colocar em “pratos limpos” alguma situação ou atitude que a incomodou. Nesse momento, saber ouvir torna-se uma arte e compreender que as vezes a “caça vira caçador” é necessário. É sempre importante saber ouvir sem emoção e refletir acerca da crítica do próximo, esse pode ser o primeiro passo para a correção de um erro ou hábito por nós despercebido.

5 – Ter conduta moral e atitude coerente com a crítica a ser feita: Como cobrar onde encontram-se débitos? Se vamos criticar alguém por alguma atitude, antes analisemos se este não é um erro por nós cometido. Se cometemos um erro, reconhecemos tal dificuldade, a cobrança na crítica deverá ser bilateral, talvez até iniciando a conversa assumindo a própria dificuldade e convidando o companheiro de trabalho a mudança conjunta.

6 – Saber reconhecer o erro: A crítica bem colocada normalmente leva a elevação do criticado, desde que a crítica encontre no destino a atitude do reconhecimento do erro, para que o reconhecimento do erro entre em cena, além da humildade, a maturidade do senso crítico. Muitos não estão preparados para ouvir a crítica, mesmo esta sendo legítima, nestes casos, apenas o tempo fará germinar as novas idéias.

7 – Saber calar e dar tempo ao tempo: Seria muita pretenção nossa achar que todos aceitarão as críticas que direcionamos incondicionalmente. Em alguns casos, tais conversas devem ter algumas sessões, não acontece assim com alguns atendimentos espirituais? Pois bem, é necessário em alguns casos que o criticado e o crítico se dêem ao tempo de “digerir” tais situações, equilibrar os ânimos e recomeçar o debate acerca do problema. Não trata-se de fugir do conflito, pois esse normalmente é inevitável, calando porém, poderemos adiá-lo sem prejuízos ao trabalho. Somos emotivos por natureza e por vezes, uma noite de sono poderá aclarar as nossas idéias e elevar o nosso nível de análise abstraindo da mesma a emotividade excessiva, especialmente se tal noite de sono for na companhia do nosso anjo da guarda, o qual é mais sábio que nós e nos auxília sempre. Saber dar o devido tempo para a aceitação ou colocação de uma crítica é saber usar o dom da paciência em nosso favor e em favor do trabalho ao qual nos propomos antes de reencarnar. O tempo é nosso amigo, e por vezes a boca fechada também.

8 – Humildade, somos todos filhos de Deus e portanto passíveis de erros: Talvez esse seja o ponto chave a ser tratado. Todos nós temos os “nervos” da vaidade encrustados em nossos espíritos, por isso vivemos em um mundo de de provas e expiações, só esse fato já é suficiente para analisarmos sem emoções qualquer crítica a nosso respeito, mesmo as menos caridosas. O erro e os vícios nos acompanharão por muito tempo, é uma benção termos ao nosso lado alguém que nos ajude a abrevia-los, mesmo que não seja esta a intenção do crítico. Humildade, eis a difícil lição a ser aprendida.
Saber discutir pontos de vista sobre a “performance” do colaborador, com o próprio colaborador, com empatia e sem emoções é dom de poucos. Lembremos que o importante é resolver o problema, sem gerarmos melindres ou dificuldades no trabalho, ou seja, agravando o cenário de insatisfação. Uma crítica mal feita, seja por imparcialidade, tentativa de imposição da idéia, por rotularmos as pessoas, etc. pode causar insatisfações e perdas no grupo. Mesmo esta, sendo realizada na tentativa de melhora. Percebamos a responsabilidade e as consequências que as nossas críticas podem atingir, desmotivando e desviando trabalhadores do foco, gerando impactos no alcance assistencialista do grupo de trabalho. Lembremo-nos sempre da primeira orientação de Kardec - o qual sofreu várias e infundadas críticas- para nós trabalhadores. Tal orientação prioriza o amor entre os pares espíritas, primeiro estágio a ser alcançado pelos trabalhadores da seara, e o qual sem este, de nada adianta a instrução na qual tantos de nós nos orgulhamos em excesso: “Espíritas amai-vos, espíritas instruí-vos”.

fonte:Carlos Eduardo Cennerelli

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