Ano II - Novembro De 1933
Pseudos Espíritas
J. Pyrrho
Pondo-se a distancia o numero, alias de pouca monta, dos negativistas e aferrados ao interesse bastardo desse agrupado de preconceitos e vaidade, que chamamos sociedade humana, cuja integridade religiosa está na razão direta da balôfa concepção herdada de paes remotos e incultos, nós outros, deslumbramos a magnificencia dos effeitos produzidos pela Doutrina dos Espiritos no seculo andante, seculo luminoso das grandes descobertas e brilhantes empreendimentos.
Invadiu, não somente o reducto dos conservadores dogmaticos, mas também a trincheira antes apparentemente invulneravel da sciencia, construindo sobre os escombros da materialidade o seu pedestal que se vem perpetuando desde que palmilhou a Terra o primeiro ser pensante e se perpetuará a disseminação deste amontoado de moleculas, ao fim de todos os tempos desmedidos da Creação. Inverdade não é que todas as concepções religiosas enfeixaram em seu bojo, embora syntheticamente umas, veladamente outras, a existencia ininterrupta desse intercambio, que se ha estabelecido, do mundo incorporeo com este sobre que perdura pela sua pequenez e inferioridade, o pontificado da carne fraca e putrecivel.
Perlustremos os tratados philosophicos e religiosos de todos os tempos, desde o polytheismo decahido, demorando a vista ás paginas do Livro de Ouro da christandade que iniciou a “batalha de vinte seculos” e fixando o olhar nos caracteres sumptuosos da Codificação Kardecista, veremos o Espiritismo ostentar-se através ás primeiras edades da humanidade até no quase envelhecer de nossas idéas no dia de hoje que se esvae.
Entretanto, grande parte dessa avalanche de homens tocados pela scentelha consoladora da verdade, occultado pelo temor e desagrado á sociedade mediocre, orgulhosa e envaidecida, o que lhe vae no foro intimo, amolda-se a esse quasi paroxismo dogmatico, embora sentindo a secreta repulsa que tem logar quando a razão detesta e a conveniência abraça.
É industrialmente que os homens, não desprendidos ainda da escravatura social, agem por este mundo além, visando apenas ultrapassar os limites da fatua grandeza terrestre.
A esses, posto que não lhes faltem a instrucção e discernimento dos factos desculpamos por serem a sagração perfeita da proposição: “tem olhos mas não querem ver”.
Todavia essa mesma desculpa não é dada aos que, espiritas convictos e militantes, esforçando-se em dar a conhecer principios e theorias adquiridos á luz da Revelação, torcem esse mesmo conhecimento, procurando adduzir, desarrazoadamente, conceitos erroneos, em verdadeiro contraste á corporificação doutrinaria.
O pensamento tangenciado ás praticas condemnadas pelo moderno Espiritismo e firmados no principio de ser a Doutrina dos Espiritos filha do fetiscismo, transbordam as suas ideas de superstições e falsos postulados.
Não podemos negar que o Espiritismo teve como mãe adoptiva a Magia Negra, assim como a chimica a Alchimia. Mas qual será o homem sensato, diz o Sr. Kardec, que trata hoje desta última? “Haverá quem, sensatamente, falle também, da Astrologia, depois de descoberta a Astronomia?”
E, baseados no que ficou referido, esses Espiritas que podemos taxar indisciplinados, prestam a sua preciosa attenção ao que decorre daquelle baixo espiritismo, esquecidos da nullidade ahi existente em face dos sãos principios da Doutrina, devendo ser a missão de todo aquelle que estuda condemnar esse attestado ás coisas santas, este insulto jogado á face de um século onde o milagre já foi circunscripto ás suas justas proporções e o espirito Rei do Inferno – Satanas – reconhecido “o caruncho das velhas e nullas religiões”.
É lastimavel o temor apoderado dos que conceberam uma relativa intuição desta Doutrina de amor e fraternidade, julgando que o espirito malefico possa entravar a marcha progressiva de uma creatura que, discernindo o bem do mal, tem o coração voltado para Deus, único juiz ratificador da nossa sentença.
Verdade é que os espiritos das trevas, e que por isso vivem em mais contacto comnosco, valem-se dessas opportunidades, que ás vezes, involuntariamente, lhes offerecemos, para dar guarida á sua maldade. Mas, por esse motivo, devemos acredital-os de natureza a obedecer systematicamente ao impulso de almas voltadas ao mal e que corporalmente habitam comnosco este carcere de provações?
Não! Guerra a tudo que diz respeito a essas praticas exteriores e nocivas que infestam o nosso paiz!
O espiritismo é a palavra de conforto levada aos necessitados, é o levantamento da nossa moral combalida, é a prophilaxia da alma pervertida e doentia! É fonte inexgotavel onde vamos haurir forças para a lucta desta vida de soffrimentos e amarguras e conhecer o que fomos, o que somos e o que valemos.
Elle não derroga o nosso designio, não trata de assumptos que se affastam da caridade, mas não essa caridade que querem possa penetrar os actos publicos de nossa vida, melhorando-nos de condições monetariamente, para realçarmos em meio o borborinho da vaidade social. É a caridade manifestada na acção regeneradora dos espiritos prepostos á elucidação da nossa conducta.
Não confundamos a acção benefica da Doutrina de consolação ás nossas dores com o advinhar chiromantico e cartomantico da nossa vida passada e futura; Deus, só Deus o sabe, a ninguém é dado vaticinar.
Precisamos é conhecer o seu valor no progresso e os meios de redimir as nossas miserias, esquecidos de tudo que diz respeito ao fastigio, ao poderio pelo ouro, mas pela palavra, pelo exemplo de nossas acções.
Manuseando os Evangelhos, ahi encontraremos tudo que é singelo, despretencioso e nobre.
Allea jacta est.
Encruzilhada – Recife
Redação || jornal@feparana.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário