sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A história de Conceição e Lia

Chico Xavier - Encontro com Divaldo Franco
Recordo-me de um fato no qual participei, em compania de Francisco Cândido Xavier, há mais de cinqüenta anos, e que tem grande atualidade, para que nós, os espíritas, neste momento em que se nos abrem as portas da divulgação, não nos esqueçamos da fidelidade à Codificação centrada no Evangelho de Jesus.

Há uma tendência inevitável de afastarem-se as criaturas da vivência com os simples, os sofredores, as filhas e os filhos do calvário. Ointelecto deslumbra, as posições relevantes fascinam e, naturalmente, em nossa condição de Humanidade, somos atraídos pelo brilho efêmero das lâmpadas da projeção e, quando menos esperamos, distanciamo-nos, sem nos darmos conta do caminho reto, do dever, atraídos pelos diversos desvios, que se abrem, fascinantes, à nossa frente.


Não foi diferente o que aconteceu com o Cristianismo. A partir de Constantino, em 313, quando se lhe abriram as portas do Império Romano e o Cristianismo passou a experimentar cidadania, naturalmente começou também o ofuscar das suas luzes libertadoras da ignorância, da impiedade, do crime, dos desvios de conduta.

A mensagem cristã pura resistiu quase inalterada por aproximadamente trezentos anos. Suportou perseguição por quase três séculos, ofereceu mais de um milhão de mártires ao testemunho.

O Espiritismo, porém, ainda não completou cento e cinqüenta anos e, na sua estrada central, já notamos muitas veredas convidando a desvios perigosos, envolvendo e atraindo pessoas bondosas, sensatas, dedicadas, e que, por uma ou outra razão, se deixam atrair para esses caminhos mais curtos do fascínio e da projeção pessoal...

No ano de 1954, no mês de junho, eu me encontrava em Pedro Leopoldo. Como, na época, eu fazia viagens duas vezes por ano àquela cidade, na ocasião, no dia 20 de junho, ao terminarmos a reunião em que Chico Xavier psicografava, aos sábados à noite, depois do atendimento aos sofredores, nos arredores da sua cidade, ele me disse, enquanto caminhávamos na direção da residência do seu irmão André, que, naquela noite, experimentara um fenômeno muito especial.

Estando desdobrado parcialmente, enquanto os Benfeitores psicografavam, havia recebido a visita de duas damas espanholas 4 (encarnadas) que estavam recebendo a sua ajuda material durante a expiação redentora na atualidade, e vinham pedir-lhe para que não esquecesse de levar-lhes comida, porque ainda não havia terminado o seu resgate doloroso, mas a fome poderia interromper esse processo libertador, e que, no domingo -já era madrugada de domingo -à tarde, nós iríamos visitá-las.

Chamavam-se Lia e Maria da Conceição as duas senhoras muito pobres que residiam ali próximo, num lugarzinho conhecido como a Lapinha. Estava presente, na ocasião, um vulto proeminente das finanças paulistas, o Dr. Francisco Pereira de Andrade, na época, um dos três diretores do Banco do Estado de São Paulo, que, naquela oportunidade, era uma potência financeira.

No mesmo dia, às 15 horas, Chico contratou dois táxis, porque o Dr. Francisco estava com a esposa, Dona Lucy, e uma cunhada -o casal residente na cidade de São Paulo e a cunhada em Santos -e também iria conosco a irmã dele, D. Luísa. Dirigi-nos à Lapinha, um lugar muito humilde. Fazia muito frio, porque, àquela época, o inverno era rigoroso na região.

Em ali chegando, saltamos, enquanto o Chico foi nos contando que o drama daquelas duas senhoras era tão grande que a sua genitora, antes de desencarnar, em 1914, já se referia que, toda vez quando experimentava grandes dores, encontrava conforto no testemunho de D. Lia e na coragem de Maria da Conceição.

Isso havia ficado na sua memória, como resultado dos relatos maternos dentro de casa -ele era criança de três para quatro anos. Nunca mais ele ouviu falar sobre essas senhoras até que, mais ou menos pelos anos quarenta, Luísa, sua irmã mais velha, narrou a história de D. Lia, elucidando que essa senhora se havia casado com um homem portador de transtornos psiquiátricos muito graves.

Naquela época, ela residia com a família em uma das fazendas em torno do Curral del Rei, quando esse senhor muito rico se apaixonou e pediua em casamento. O pai dela aquiesceu, e ela viu o futuro marido apenas nesse dia e no das bodas.

Ele levou-a para sua propriedade, após o consórcio matrimonial, quando começou o calvário da senhora, porque, muito atormentado, 5 entre os vários desvios de conduta, ele era portador de um ciúme mórbido, e depois que nasceu a primeira filha, desvairando, ele começou a atribuir que a menina não era sua filha e sim do capataz.

Depois de mandar surrar o empregado o expulsá-lo da fazenda, ele queimou com tição de fogo as partes pudentas da mulher, para que ela ficasse impossibilitada de traí-lo outra vez com quem quer que fosse. D. Lia criou a filha com abnegação, com muito sofrimento, sem nunca sair daquela herdade. A filha casou-se, mais tarde, conforme os padrões da época, e foi morar com o seu marido em uma outra, propriedade.

Dois anos após, estando grávida, mandou pedir à mãe fosse acompanhá-la no momento da délivrance e levasse também a aparadeira, uma parteira prática muito famosa que havia na região. Era a primeira vez que D. Lia saía de casa, para ir ajudar a filha numa situação muito grave.

O parto foi muito difícil e quando nasceu a criança, a parteira teve um choque muito grande, porque a menina apresentava anomalias teratológicas muito graves: a cabeça era normal, mas o corpo se apresentava retorcido como se fosse moldado por mãos impiedosas que lhe mudaram a estrutura. A parteira, assustada, mostrou-a à mãe, ainda no leito. A senhora teve uma crise de loucura e atirou a filha pela janela.

Então Dona Lia saiu correndo -a avó -, pegou a criança e desapereceu. Não se soube, durante muitos anos, do paradeiro das duas, até que as notícias começaram a aparecer, narrando a história dolorosa de uma senhora que carregava um monstro, pedindo esmolas pelas cidades interioranas próximas a Belo Horizonte.

DonaLuísa se lembrou que chegou a vê-las e contou isso ao irmão comovido. No começo dos anos 50, ele estava numa das suas reuniões de atividades mediúnico-doutrinárias, psicografando, quando, fora do corpo, ele viu adentrarem-se duas damas muito belas, vestidas ricamente, à espanhola, e que se lhe acercavam.

Aquela que parecia ser a de mais idade perguntou-lhe em Espírito: 6 -Você é o filho de D. Maria João de Deus, o Chico Xavier? Ele respondeu: -Sim, sou. -Pois é, sua mãe foi muito amiga nossa. Nós estamos reencarnadas, resgatando dolorosos crimes anteriormente cometidos.

Encontramonos numa situação muito lamentável e D. Maria João de Deus sugeriume que viesse pedir-lhe socorro, porque você é dotado de sentimentos cristãos e de muita misericórdia. Nós estamos morando aqui próximo, na Lapinha, e precisamos de alimentos para que nossos corpos resistam à expiação. Você poderia nos visitar, Chico? Ele confirmou: -Mas com muito prazer. E

la então explicou-lhe que havia exercido, na corte de Felipe II, uma posição muito relevante, havendo sido mãe de uma personalidade de alta significação no clero, tendo contribuído com a sua ambição para atormentar pessoas que eram acusadas como dignas de processo inquisitorial, por heresia.

Ela e sua filha, irmã, portanto, da alta personalidade clerical, beneficiavam-se das denúncias que era feitas contra pessoas muito ricas, porque, segundo a lei da época, os bens passavam a pertencer ao Estado, que ficava com 50%, outra parte ia para a Igreja e a outra para o denunciante. Elas compraziam-se nisso, mas nunca se deram ao trabalho de ver como eram arrancadas as confissões das suas vítimas.

Sabiam, no entanto, que eram por processos muito bárbaros, e que, ao desencarnarem os três -ela primeiro, o filho depois e a filha em último lugar -, tiveram o despertar da consciência e encontraram grande número das suas vítimas, que os infelicitaram de maneira impiedosa, quase hedionda.

A Misericórida Divina, apiedada nos seus sofrimentos,trouxe-os às expiações dolorosas e, durante várias vezes, reencarnaram-se sob os espículos da lepra, mas esta. na qual se encontravam, seria a última fase de recuperação, e que elas pretendiam -porque o filho já estava redimido -coroar a jornada com muito êxito. Chico ficou muito sensibilizado e prometeu visitá-las.

No dia seguinte, em companhia de Dona Luísa, lhes procuraram reunir alguns víveres do pouco que tinham e foram visitar o casebre de Dona Lia e Dona Conceição. Era uma dessas construções de pau-a-pique muito modestas, no cimo de um aclive, num lugarejo separado do aglomerado de casas.

A partir de então, vez que outra, quando ele dispunha de qualquer recurso, comprava alimentos e ia levá-los às duas senhoras. D. Maria da Conceição era surda-muda, além da deformidade que apresentava no corpo. E era quase totalmente cega.

Ela ouvia-o, sentia-o e os dois conversavam mentalmente. Quando ele se acercava, ela se agitava de felicidade, porque lhe percebia a presença. Então, com um jeito muito peculiar, ele disse-me: -Pois é, eu sou o seu cabeleireiro. Eu sou o seu manicure.

Sou eu que lhe corto os cabelos... Lindos! Divaldo ele me afirmou -ela é linda! Parece Rita Hayworth. Estava na época de Gilda, a célebre Rita Hayworth. E eu, com a minha imaginação juvenil, naquela época, já imaginei aquela mulher hollywoodiana, fascinante, começando a concebê-la, deslumbrante. -Agora o corpinho é deficiente, etc.
fonte:  http://www.forumespirita.net/fe/artigos-espiritas/chico-xavier-encontro-com-divaldo-franco-em-1954/

EDUCAR OS PRÓPRIOS FILHOS, UM GRANDE DESAFIO PARA OS PAIS

 
Uma brasileira foi condenada a nove meses de prisão, na Espanha, por expulsar de casa, por um dia, o seu filho de 15 anos. A sentença recebeu destaque nos principais jornais e TVs espanholas. Nossa conterrânea alegou que agiu assim, porque pretendia dar uma lição mais "forte" no filho, que é problemático, desobediente e muito agressivo. Sua intenção era ensinar-lhe regras sociais e respeito pela mãe.
Para a juíza, do Tribunal Penal de Málaga, a atitude da brasileira representa uma negligência e um delito de abandono temporário, motivo pelo qual a condenou, explicando que, embora o menor se encontre em plena adolescência, com os conflitos comuns da idade, isso não é razão para colocá-lo fora de casa, deixando-o à intempérie na rua, por uma noite, porque essa decisão cria uma situação de risco para o menor.
Ante o fato narrado pela imprensa, e para não nos precipitarmos em uma análise fria da conduta alheia, importa, antes de tudo, salientarmos a necessidade de revisarmos os processos educativos que adotamos para com os nossos filhos, e, se preciso for, corrigir, sem violências, enquanto há tempo . Como adeptos do Espiritismo, devemos ministrar a educação "espírita" a nossos filhos, e não podemos deixar de fazê-lo sob qualquer pretexto. Os Espíritos nos explicam que a fase infantil, em sua primeira etapa, até os sete anos, aproximadamente, é a mais acessível às impressões que recebe dos pais, razão pela qual não podemos esquecer nossos deveres de orientá-los quanto aos conteúdos morais.
Toda e qualquer violência doméstica é trágica sob qualquer análise. As relações entre filhos e pais deveriam ser, acima de tudo, de ordem ética. Mas, observa-se nessa relação uma deterioração emocional profunda e uma complexa malha de desestabilidades morais, que merece comentários. No clã familiar de tempos mais antigos, sem dúvida, encontrava-se um espaço de convivência maior entre seus membros da família, embora não se esteja discutindo sua "qualidade". Na atual arrumação familiar, pelo contrário, e apesar das menores dificuldades materiais, encontra-se um espaço menor de convivência. A tecnologia volátil, descartável, é responsável, quase que diretamente, por essa conjuntura, pois, muitos pais e filhos ocupam espaços importantes para jogar vídeo-games, assistir televisão, ouvir música com fone de ouvido, navegar na Internet, e assim por diante. Em face disso, somos instados a afirmar que o instituto familiar necessita de grande choque de modelo e, sobretudo, de muito apoio religioso para alcançar seu equilíbrio moral.
Muitos grupos familiares vivem, sobrevivem e revivem agressividades múltiplas, influenciadas pela violência que, insistentemente, é veiculada pelos noticiários, documentários, filmes, telenovelas vazias de conteúdo moral e programas de auditório, cada vez mais obscuros de valores éticos. Alguns familiares assimilam, subliminarmente, essas cargas cotidianas de informações e, no dia-a-dia, reagem, violentamente, diante dos reveses da vida ou perante as contrariedades corriqueiras.
Pela orientação espírita, sabemos que se não aceitarmos nossos filhos, hoje, como são, teremos de aceitá-los amanhã, pois as leis da vida exigem, segundo nos ensinou Jesus, que nos entendamos com os nossos irmãos, de penosa convivência, enquanto estivermos a caminho com eles. A fuga aos deveres atuais será quitada mais tarde com os juros devidos. Os filhos rebeldes são filhos de nossas próprias obras, em vidas anteriores, que a Bondade de Deus, agora, encontra a possibilidade de nos unir pelos laços da consanguinidade, dando-nos a estupenda chance de resgate, reparação e os serviços árduos da educação.
Um posicionamento rigoroso a ser observado pelos pais é nunca partir para atitudes extremas, como, por exemplo: violência verbal, violência física ou, ainda, movida por extrema impaciência como fez a brasileira com o filho na Espanha, expulsando o filho de casa. Qualquer ato precipitado dos pais poderá reverter contra eles mesmos, futuramente, e lançá-los à dor do arrependimento tardio. Convém que não se esqueçam, principalmente, de que a oração fervorosa é a mais poderosa ferramenta de que dispomos como solução contra quaisquer sugestões do mal.
Os pais devem ser o expoente divino de toda a compreensão espiritual e de todos os sacrifícios pela paz da família. A missão dos pais, principalmente da mãe, segundo Emmanuel, resume-se em dar sempre o amor de Deus, que pôs no coração das mães a sagrada essência da vida. "Nos labores do mundo, existem aquelas [mães] que se deixam levar pelo egoísmo do ambiente particularista; contudo, é preciso acordar a tempo, de modo a não viciar a fonte da ternura. A mãe terrestre deve compreender, antes de tudo, que seus filhos, primeiramente, são filhos de Deus."(1)
Os filhos, quando crianças, registram em seu psiquismo todas as atitudes dos pais, tanto as boas quanto às más, manifestadas na intimidade do lar. Por esta razão, os pais devem estar sempre atentos e, incansavelmente, buscando um diálogo franco com os filhos, sobretudo, amando-os, independentemente, de como se situam na escala evolutiva. Devemos transmitir segurança aos filhos através do afeto e do carinho constantes. Afinal, todo ser humano necessita ser amado, gostado, mesmo tendo consciência de seus defeitos, dificuldades e de suas reais diferenças.
O Espiritismo não propõe soluções específicas, reprimindo ou regulamentando cada atitude, nem dita fórmulas mágicas de bom comportamento aos jovens. Prefere acatar, em toda sua amplitude, os dispositivos da lei divina, que asseguram, a todos, o direito de escolha (o livre-arbítrio) e a responsabilidade consequente de seus atos. Por todas essas razões, precisamos aprender a servir e perdoar; socorrer e ajudar os filhos entre as paredes do lar, sustentando o equilíbrio dos corações que se nos associam à existência e, se nos entregarmos realmente no combate à deserção do bem, reconheceremos os prodígios que se obtêm dos pequenos sacrifícios em casa por bases da terapêutica do amor.
Porém, urge salientar que, quando os filhos são rebeldes e incorrigíveis, impermeáveis a todos os processos educativos, "os pais, depois de movimentar todos os processos de amor e de energia no trabalho de orientação educativa dos filhos, sem descontinuidade da dedicação e do sacrifício, que esperem a manifestação da Providência Divina para o esclarecimento dos filhos incorrigíveis, compreendendo que essa manifestação deve chegar através de dores e de provas acerbas, de modo a semear-lhes, com êxito, o campo da compreensão e do sentimento."(2)
Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Blog: http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com
FONTES:
(1)XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995
(2)idem